O soco na cara visual
Com intervenções fotográficas que tensionam história, violência e representação, Mulambö expõe pela primeira vez em São Gonçalo — cidade onde a série nasceu do deslocamento
Com intervenções fotográficas que tensionam história, violência e representação, Mulambö expõe pela primeira vez em São Gonçalo — cidade onde a série nasceu do deslocamento
A circularidade define o gesto de Mulambö ao levar para São Gonçalo a série que nasceu exatamente ali, em um momento de desenraizamento. A exposição "De volta ao lugar", que estreia nesta sexta-feira (13) no Sesc São Gonçalo, reúne dez intervenções fotográficas iniciadas em 2016, duas esculturas e uma bandeira — trabalhos que o artista produziu quando morava na cidade sem, de fato, sentir que pertencia a ela.
"Eu estava lá querendo estar em Saquarema. Era muito essa ideia do entre, de não estar na minha cidade, nem me sentir pertencente a São Gonçalo de verdade. Essa série foi a forma que encontrei de me relacionar com esse movimento de não estar em casa", conta.
A série surgiu de uma necessidade prática que se converteu em linguagem. Sem espaço físico nem estrutura para pintar, Mulambö encontrou na fotografia uma saída e, nela, um método: tomar imagens em preto e branco — extraídas de jornais, revistas e arquivos históricos — e intervir sobre elas com tinta vermelha. O resultado é deliberadamente impactante. "A ideia do vermelho sobre o preto e branco é esse sentimento de praticamente um soco na cara visual. É chamar atenção", define o artista. Embora parte das intervenções tenha origem digital, ele reaaplica manualmente a tinta sobre as impressões, garantindo textura e presença física às obras.
O recorte temático é amplo e tenso: imagens da ditadura, jogadores de futebol, iconografias religiosas, operações policiais. Obras como "São Jorge" misturam devoção e vida urbana; "Faço o fogo e carrego a fogueira" e "Na guerra cupido vira caçador" embaralham símbolos e realidades. Em "Heróis" e "Nobre (Resistência)", o carnaval e a periferia entram em diálogo com a representação do corpo negro. Entre os inéditos, "Depredação do patrimônio público" estende o olhar para além das figuras humanas, ressignificando monumentos e estruturas como herança de violência colonial.
Outro trabalho inédito traz a imagem de Pelé para estabelecer, nas palavras do próprio artista, "uma rima visual que questiona permanências e distorções na representação do corpo negro na história brasileira". A intenção que atravessa todos os trabalhos é a mesma: "A ideia desses trabalhos é modificar o ponto de vista das representações. Não esconde o que acontece, mas você dá o protagonismo para quem está vivendo de fato."
A curadora Isabel Portella, que assina também a mostra anterior do artista, "O Canto da Vila", lê o trabalho como gesto político de resistência: "É na resistência que os artistas traçam as possibilidades de um circuito ativo, dinâmico e lúdico. A arte não renuncia às experimentações, porque este é o caminho para resistir e transgredir."
Nascido em 1995 e criado na Praia da Vila, em Saquarema, João tornou-se Mulambö — nome que carrega a identidade de um artista cujo trabalho circula por instituições como Masp, Pinacoteca de São Paulo, Museu de Arte do Rio e Inhotim (MG).
SERVIÇO
DE VOLTA AO LUGAR
Sesc São Gonçalo (Av. Pres. Kennedy, 755, Estrela do Norte, São Gonçalo) | De 13/3 a 14/6, de terça a domingo e feriados (9h às 17h30) | Entrada franca