Na profundidade do azul
Fátima Vollú reúne aquarelas que exploram a força expressiva do azul em exposição individual na Fábrica Bhering
Fátima Vollú reúne aquarelas que exploram a força expressiva do azul em exposição individual na Fábrica Bhering
O azul nunca foi apenas uma cor para Fátima Vollú. É matéria de investigação, memória afetiva e ponto de partida para narrativas visuais que transitam entre o individual e o coletivo. É com essa convicção que a artista plástica apresenta "Azul e um Pouco Mais", exposição individual que ocupa o Ateliê Pluralistas, na Fábrica Bhering, na Zona Portuária. O conjunto de aquarelas reúne trabalhos que partem do cotidiano e da natureza para chegar à abstração, tendo no matiz azul — em suas múltiplas variações de tom — o eixo condutor de toda a mostra.
A origem da exposição remonta a outubro de 2025, quando a artista plástica desenvolveu obras para a coletiva Tempo, também realizada no Ateliê Pluralistas. Naquela ocasião, a artista explorou a relação entre tempo e memória a partir de uma abordagem colaborativa: fragmentos de lembranças enviados por seguidores via Instagram tornaram-se matéria-prima para a composição Coleção de Memórias. As pequenas aquarelas, com aspecto de figurinhas recortadas, foram executadas em azul numa referência direta à cianotipia, antigo processo fotográfico que utilizava sais de ferro para produzir imagens em tonalidades características. O resultado evidenciou como memórias individuais podem adquirir caráter universal quando reunidas sob uma mesma linguagem visual.
A pesquisa seguiu adiante. Em "Cidade Coletiva", Vollú manteve o interesse pela narrativa compartilhada e pelo pequeno formato, mas introduziu contrastes cromáticos para traduzir a multiplicidade de percepções que cada indivíduo projeta sobre os espaços urbanos que habita. O azul permaneceu como referência central, mas passou a dialogar com outras cores, ampliando o repertório visual da série.
"O azul sempre atraiu meu olhar, sua presença reflete nos meus tubos de aquarela: ciano, índigo, ultramarino, cobalto, Prússia, lápis lazúli... Cada um, um mundo, uma percepção", explica a artista, apontando ainda a influência da tradição azulejar ibérica e de sua presença marcante na cultura visual brasileira, especialmente em São Luís do Maranhão — conhecida como a Cidade dos Azulejos. Sensibilizada por essa estética, a artista desenvolveu aquarelas em formato quadrado, em azul e branco, com elementos da vegetação nativa brasileira, combinando herança cultural e a paisagem local.
Ao longo da mostra, o azul ora aparece em sua forma mais pura, ora convida outras cores para compor harmonias ou acentuar contrastes. O conjunto propõe ao visitante uma experiência de imersão que vai além da contemplação estética — é um convite a perceber a cor como linguagem, como tempo e como memória.
SERVIÇO
AZUL E UM POUCO MAIS
Ateliê Pluralistas (Fábrica Bhering — Rua Orestes, 28 - 2º andar)
Até 28/3, de quarta a sexta (14h às 18h), sábados (10h às 19h)
Entrada franca