Corpo, matéria e presença

Artistas em estágios opostos em suas carreiras, Anna Bella Geiger e Raquel Saliba viram pelo avesso a lógica de um sistema que relegou o corpo feminino à objetificação

Por Affonso Nunes

Artista consolidada e outra em ascensão, Anna Bella Geiger e Raquel Saliba reúnem seus trabalhos na mostra 'Avesso'

Artistas em estágios opostos em suas carreiras, Anna Bella Geiger e Raquel Saliba viram pelo avesso a lógica de um sistema que relegou o corpo feminino à objetificação

O título escolhido para a exposição conjunta de Anna Bella Geiger e Raquel Saliba não poderia ser mais precisoo. "Avesso" é exatamente o que as duas artistas propõem: virar pelo avesso a lógica de um sistema da arte que por décadas relegou o corpo feminino ao papel de objeto. A mostra ocupa o segundo pavimento do Museu Histórico da Cidade, na Gávea, a partir desta terça-feira (3), com curadoria de Shannon Botelho. No primeiro pavimento, Raquel apresenta ainda a individual "Bashar: Nós Humanos".

De Geiger, que começou a produzir nos anos 1960, foram selecionadas gravuras em metal, telas em guache e nanquim, obras em técnica mista e objetos escultóricos. O recorte atravessa décadas e revela uma artista que nunca parou de interrogar a superfície. Cortes, cavidades e dobras transformam o plano em algo vivo, quase orgânico — como se a tela guardasse um interior prestes a irromper. "Geiger expõe o avesso, desestabiliza o plano e transforma a matéria em linguagem crítica. Ao afirmar uma poética centrada no corpo em um sistema historicamente regulado por narrativas masculinas, a artista inscreve, de modo não panfletário, uma presença feminina que reivindica espaço na redefinição da arte e de seus discursos", escreve Botelho no texto curatorial.

Na outro deste avesso, Raquel Saliba responde com corpos. Torsos femininos em cerâmica — acéfalos, sem gênero definido, submetidos a queimas ancestrais —, alguns moldados com tecidos, outros transformados pela ação do mar após períodos de submersão. Na instalação mais contundente do conjunto cabides sustentam troncos femininos como se fossem mercadorias em exposição, evocando a objetificação do corpo da mulher. "Para mim, como mulher, o feminino é forte. Como escultora, gostaria de abrir mais portas para outras mulheres, especialmente aquelas que vivem sob opressão, preconceito e diferentes formas de violência", afirma a artista.

Nascida em Itaúna (MG) e formada em Psicologia, Raquel dedica-se exclusivamente à arte há 15 anos. Sua trajetória passa por Londres, Austrália e Paris — onde expôs no Carrossel do Louvre em 2018 — e inclui uma formação técnica que vai da queima Anagama, de origem japonesa, à Obvara, método do Leste Europeu do século XII. "A cerâmica é um dos vestígios culturais utilizados pela arqueologia para reconstruir narrativas históricas anteriores à escrita", explica. O barro, para ela, é memória com forma.

No primeiro pavimento, a individual "Bashar" aprofunda as investigações e inquietudes da artista. Palavra árabe que significa humanidade, o título nomeia um encontro de corpos feitos de barro que carregam o peso do tempo e das diferenças. "Entre nascimento e desgaste, permanência e transformação, as obras nos lembram que a humanidade é constituída, antes de tudo, pelas relações que estabelece e pelos vestígios sensíveis que lega à eternidade", escreve a curadora.

SERVIÇO

AVESSO

Museu Histórico da Cidade (EstR. Santa Marinha, s/nº, Gávea)

De 3/3 a 3/5, de terça a domingo (9h às 16h)

Entrada franca