Descartes ressignificados
Mário Camargo transforma resíduos têxteis em 'peles das paredes'
Mário Camargo transforma resíduos têxteis em 'peles das paredes'
Sofás desgastados pelo tempo, colchas que já aqueceram corpos anônimos, tapetes sem destino certo. O que a maioria descartaria sem pensar vira matéria-prima nas mãos de Mário Camargo. Na exposição "hoje, eu contei pras paredes", em cartaz no Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema, o artista plástico apresenta trabalhos que desafiam a lógica convencional da pintura e do suporte. Com curadoria de Denise Araripe, a mostra reúne peças que não cabem em molduras.
O processo criativo de Camargo começa pela coleta de materiais descartados. Tecidos que guardaram o uso cotidiano, superfícies que sustentaram pesos e histórias são recortados, justapostos e costurados. As linhas atravessam, marcam, insistem em revelar a construção da obra. Sobre essa pele composta, o artista aplica cores densas e vibrantes. O preto surge em círculos irregulares espalhados como constelações instáveis, criando campos de tensão entre o concreto do material e o abstrato da forma.
"Esta ideia de ressurreição do rejeitado, em conjunto com as costuras industriais que substituíram os traços, evidenciam o ressurgimento de uma nova poética", explica o artista, relembrando uma profecia feita pelo crítico de arte francês Pierre Restany, que previu o abandono dos chassis tradicionais. "Restany disse que, no futuro, minhas obras passariam a ser 'as peles das paredes' e, realmente, foi o que aconteceu. Hoje, meus trabalhos são presos nas paredes por agulhas e funcionam como verdadeiras peles", diz.
As obras de "hoje, eu contei pras paredes" são fixadas diretamente nas superfícies arquitetônicas, recusando a distância convencional entre obra e espaço expositivo. As paredes deixam de ser mero suporte passivo para se tornarem corpo que escuta e sustenta. Essa relação direta com a arquitetura estabelece um diálogo sobre o que as superfícies absorvem silenciosamente no cotidiano - conversas, segredos, vivências que se acumulam nos espaços domésticos.
A trajetória de Camargo começou quase por acaso. Como muitas crianças, demonstrou interesse precoce pelo desenho, mas foi o convite de uma amiga pintora que o levou à primeira exposição. A crítica de arte Esther Emílio Carlos, do Ibeu, abriu portas importantes ao se interessar pelo seu trabalho. O artista expôs em Santiago do Chile e Paris, onde participou da feira MAC 2000 como único brasileiro entre cem artistas franceses. Na ocasião, chamou atenção sua técnica peculiar de pintar diretamente no chão, ao sol, usando tinta acrílica líquida e interrompendo a secagem com jatos d'água em processo quase arqueológico.
Para Camargo, a arte exerce função existencial. Ele recorre a Nietzsche para explicar seu processo criativo: "A arte existe para não morrermos da verdade" e "A arte existe para que a realidade não nos destrua", cita o filósofo alemão. "Essas definições sintetizam como enfrentamos nossas barreiras e nos ajustamos ao que nos cerca. A arte transmite verdades, muitas vezes mostradas subliminarmente nos projetos e desenhos, e são denúncias à frente do seu tempo", afirma o artista.
SERVIÇO
HOJE, EU CONTEI PRAS PAREDES
Centro Cultural Cândido Mendes (Rua Joana Angélica, 63, Ipanema)
Até 4/2, de segunda a sábado (15h às 19h)
Entrada franca
