O corpo preto como manifesto

Sérgio Adriano H celebra 25 anos de carreira com exposição inédita que questiona narrativas históricas produzidas acerca da negritude

Por Affonso Nunes

Sérgio Adriano H faz do próprio corpo uma ferramenta de denúncia contra o racismo estrutural

O Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro recebe a partir desta quarta-feira (23) a exposição "CORpo Manifesto", de Sérgio Adriano H, que marca os 25 anos de trajetória de um dos mais importantes artistas negros da arte contemporânea brasileira. A mostra reúne 113 obras que atravessam fotoperformance, escultura, pintura, instalação e vídeo.

Catarinense de Joinville, Sérgio Adriano H construiu sua poética artística utilizando o próprio corpo como instrumento de denúncia contra o racismo estrutural e a invisibilidade histórica da população negra no Brasil. Suas obras funcionam como documentos que questionam narrativas oficiais sobre negritude e identidade, estabelecendo conexões entre passado colonial e presente através de uma linguagem que combina impacto visual e reflexão política.

A exposição reúne trabalhos emblemáticos da trajetória do artista como "Ordem e Progresso - Direito das Obrigações", da série "PALAVRAS TOMADAS", "O lugar que pertenço" e "História do Brasil". Cada peça foi selecionada pelos curadores Juliana Crispe e Claudinei Roberto para compor um panorama da produção do artista, evidenciando sua abordagem conceitual da decolonialidade numa investigação sobre histórias ausentes e palavras não ditas.

"Tenho um sonho e estou transformando esse sonho em um mantra para que, de tanto ser repetido, inspire outros a sonhar", destaca. "Ser um artista negro é sonhar que um dia um garoto ou uma garota negra, nascidos em uma comunidade, em uma favela, ao abrirem um livro de história da arte, encontrem ali o meu nome. Descubram que Sérgio Adriano H nasceu em Joinville, pobre, sem saber sonhar, mas encontrou a arte e por ela foi salvo."

Para Sérgio, a arte proporcionou não apenas reconhecimento individual, mas consciência de seu papel político. "Me vejo nas crianças negras e, por isso, quero que elas se reconheçam no meu trabalho. Minha arte é um monumento de mulheres e homens negros que inspira o futuro e colabora para que jovens e crianças se reconheçam", afirma.

A curadora Juliana Crispe destaca que a exposição transcende o campo artístico para se tornar um chamado à revisão histórica. "Que esta exposição seja um manifesto para a história do Brasil que precisa ser interrogada e reconstruída, ativando a educação como campo de ação e transformação", observa.

Claudinei Roberto ressalta a função contemporânea da arte na obra de Sérgio Adriano H. "O corpo do artista é uma plataforma de resistência e reflexão sobre as tensões entre o passado colonial e o presente racista. Ele traz à tona as feridas históricas que ainda precisam ser curadas, com uma linguagem poética e política", analisa o curador.

A programação de abertura inclui a performance "desCOLONIZAR CORpos", realizada pelo próprio artista, às 18h.

SERVIÇO

CORpo MANIFESTO

CCBB RJ (Rua Primeiro de Março, 66)

De 23/7 a 15/9, de terça a domingo (9h às 21h)

Entrada franca