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SÓ CARIOQUICES: O sociólogo de guaraná

Por por Fred soares @fredaosoares

Imagem criada com a IA GPT Image 2 para a coluna Só Carioquices, de Fred Soares, de 29/10/2026

Confesso logo, antes que alguém me denuncie: não bebo. Nem cerveja, nem cachaça, nem aquele uísque que o dono jura ser escocês e que tem sotaque de Ciudad del Este. Meu cardápio é guaraná, suco de laranja e água de coco. Em dia de pecado grave, uma batidinha de amendoim, que no meu organismo produz o efeito de um absinto.

Por isso nunca fui freguês notório de pé-sujo. Seria como frequentar o Maracanã para torcer pelo gandula. Acontece que o Rio tem dessas coisas: aqui o botequim não é lugar de beber. É lugar de saber.

Chego, puxo a cadeira de plástico com a marca de cerveja desbotada desde a Copa de 98 e peço meu refrigerante. O balconista me olha como o sacristão olha quem entra na igreja só para fugir da chuva. E cobra o mesmo preço da cerveja, por via das dúvidas.

Em dez minutos estou mais bem informado do que qualquer assinante de jornal. Na mesa do canto, três aposentados já resolveram a dívida pública, montaram o ministério inteiro e demitiram o técnico do Flamengo, este último por unanimidade. Na mesa ao lado, discutem se Deus é brasileiro ou só é torcedor do Flamengo (Exu é, tenho certeza!). Ninguém chega a conclusão nenhuma, e a graça está aí. No boteco, a conclusão é o assunto seguinte.

Stanislaw Ponte Preta, se ainda andasse por aqui, teria material para uns dez volumes do Febeapá numa única tarde de quarta-feira. E Aldir Blanc, que fez da mesa de bar um tratado de antropologia carioca, já teria batizado cada um desses personagens.

Hoje esse trabalho de campo tem até titular. O sociólogo Eduardo Freitas, o Preá, roda os botequins da cidade com o rigor de quem faz pesquisa e o copo de quem faz parte da amostra. Só em Copacabana, mapeou 75 num estudo que ele mesmo chamou de ébrio-etnográfico. Pelo país, já passou de 500 balcões. Eu sou, no máximo, o estagiário dele. Abstêmio.

E os personagens passam. Passam o tempo todo, como num desfile sem alegoria.

Tem o bebum oficial da casa, que anuncia em voz alta que amanhã para de beber. Anuncia isso, pelas contas do balconista, há vinte e cinco anos. Tem o velhinho que jura ter estado em Lima, em 2019, no segundo gol do Gabigol contra o River. A cada vez que conta, chega mais perto do campo. Começou na arquibancada. Na versão de hoje, já estava no banco, ao lado do Jorge Jesus, e foi ele quem mandou chutar.

Tem o morador de rua que pede um trocado, ganha um pastel e faz a análise mais lúcida da tarde sobre a zaga rubro-negra. Sai aplaudido.

Tem o menino que vem comprar pão a mando da mãe e volta para casa com o pão, uma bala Juquinha e três palavrões novos no vocabulário. Educação continuada.

Lá no alto, num suporte que desafia a engenharia, a televisão fica ligada o dia inteiro. É o único lugar do Rio onde um gol do Vasco, uma nota de escola de samba e a cotação do dólar recebem o mesmo tratamento: um palpite e uma gargalhada.

Logo abaixo, ao lado do caixa, São Jorge monta guarda de lança em riste, com vela acesa e um copo aos pés do cavalo. Ninguém sabe ao certo se ele protege a casa do dragão ou do fiado. Pelo sim, pelo não, o dono deixa a imagem de frente para a porta.

E tem Dona Zezé, que atravessa a calçada com o Duque, um vira-lata que já passou dos cinquenta anos, em idade de cachorro. Os dois andam no mesmo compasso, devagar, e o boteco inteiro para de falar mal do governo só para dar boa-tarde aos dois. É a única unanimidade da rua, mais até do que a demissão do técnico.

Eu, de guaraná na mão, observo tudo como um sociólogo de bermuda. O pé-sujo é uma universidade que não dá diploma, não cobra mensalidade e funciona até a última porta de aço baixar. Quando baixa.

Na hora de ir embora, pago minha conta, que é a menor da casa, e o balconista me dá um sorriso de quem já entendeu o tipo. Saio sem ter bebido uma gota. E, mesmo assim, meio tonto. De gente, de assunto, de Rio de Janeiro.