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Morre Juarez Machado, aos 85

Pintor, desenhista, escultor, cartunista, mímico e cenógrafo levou o humor de desenho para a TV nos anos 1970

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Juarez Machado foi um dos artistas plásticos mais populares de sua geração

Multiartista pode ser uma definição desgastada e usada à exaustão, mas não para explicar quem foi Juarez Machado, que morreu no fim da tarde desta terça-feira (6), no Hospital Universitário de Vassouras RJ). Ele estava internado havia cerca de um mês para tratar uma pneumonia e, segundo a família, dava sinais de melhora — foi quando o coração parou. Ele tinha 85 anos e convivia, nos últimos anos, com um quadro de Alzheimer. A parada cardíaca por complicações da pneumonia é a causa oficial, confirmada pelo Instituto Internacional Juarez Machado, o IIJM, entidade que o próprio artista fundou para cuidar do próprio legado.

"Joinvilense de nascimento e cidadão do mundo por vocação, Juarez Machado construiu uma trajetória singular nas artes, reconhecida no Brasil e no exterior", disse a nota do instituto.

Com ele se fecha um dos raríssimos dossiês da arte brasileira em que a pergunta "o que você faz?" exigia um parágrafo de resposta. Pintor, desenhista, gravador, escultor, cartunista, ilustrador, mímico, ator, cenógrafo e escritor — a lista, que em qualquer outro soaria currículo inflacionado. "Eu não sou mímico, eu sou um desenhista, um desenhista do gesto. E o gesto é, na verdade, o pensamento em imagem", definia ele próprio. O crítico Jacob Klintowitz foi na mesma linha: Juarez era "um narrador e não um juiz", encenava situações em vez de explicá-las.

Nasceu em 16 de março de 1941, numa casa onde a imagem fazia parte da rotina. O pai, João de Oliveira Machado, era caixeiro viajante, colecionador de antiguidades, restaurador de relógios e fotógrafo amador. A mãe, Leonora Busch Machado, pintava leques numa fábrica local. Aos 14 anos, o menino já desenhava rótulos e embalagens de remédios numa gráfica. Curitiba veio depois, com a Escola de Música e Belas Artes do Paraná e a primeira individual. E o Rio, em seguida, com a projeção nacional como chargista e desenhista de humor para "O Cruzeiro", "Jornal do Brasil" e "O Pasquim".

Foi no Rio que Juarez invadiu a sala de estar do país. Cenógrafo da TV Globo, estreou em 1974 um quadro no "Fantástico" em que, com o rosto pintado de branco, dava vida aos próprios desenhos — tornou-se o pioneiro do desenho de humor na televisão brasileira. No mesmo ano, assinou a cenografia e os figurinos do primeiro especial de Roberto Carlos, e depois trabalhou em projetos de Elis Regina, Raul Seixas e Emílio Santiago. "Eu fiz essa bicicleta de rodas quadradas, e eu brinco, para andar nesta cidade de buracos redondos", explicava, sobre a obsessão com bicicletas impossíveis.

Reprodução YouTube - Em suas participações no Fantástoco, Juarez interagia com seus desenhos

No fim dos anos 1970, a pressa da televisão deu lugar à lentidão da pintura — mas a mímica, a cenografia e a caricatura reapareceram nas telas, onde objetos banais viravam atores de pequenas cenas. Em 2022 recebeu importante retrospectiva no Museu Oscar Niemeyer, com 166 obras.

Divulgação - Depois do sucesso na TV, Juarez Machado dedicou a maior parte de seu tempo à pintura

Nos anos 1980 estabeleceu ateliê em Montmartre, reduto parisiense de boemia e artes. Lá na França recebeu a Ordem das Artes e das Letras, a maior condecoração cultural do país. A memória, porém, nunca emigrou: Joinville, Copacabana, Veneza e o circo seguiam povoando as telas. A cidade natal devolveu a gentileza em pedra e cimento. O mural cerâmico "O Grande Circo" estampa desde 1998 a fachada do Centreventos Cau Hansen, onde funciona o Teatro Juarez Machado, inaugurado em sua homenagem. Em 2014, o instituto que leva seu nome ocupou a antiga casa dos pais — lá, em 2020, ele velou a esposa, Melina Mosimann, diretora do instituto, morta aos 53 anos por câncer.

A repercussão correu a noite e a manhã. "Hoje, ainda, eu estava me lembrando de Curitiba, onde tudo entre nós começou, uma amizade muito grande que perdurou até agora. O Brasil perde um artista múltiplo. Juarez Machado, uma grande pessoa, um grande amigo", disse o ator Ary Fontoura, parceiro de juventude. A Prefeitura de Joinville decretou três dias de luto oficial. "Juarez será sempre lembrado pelas suas obras, personalidade marcante e irreverência", diz a nota. A Associação de Artistas Plásticos de Joinville pediu "que sua obra continue falando por ele", a Fundação Catarinense de Cultura publicou nota de pesar, o Hospital Dona Helena destacou o homem "apaixonado pela vida" e a Artestil Galeria, de Curitiba, registrou que "parte essencial da história da arte brasileira se despede hoje".

A única frase que ele deixou pronta para a ocasião, porém, já existia: "Pena eu morrer um dia. Ainda teria tantas coisas para viver. E é a chance da gente entrar para a eternidade. Só a arte é eterna."



Aos