Aldir Blanc: o Brasil que conhece e ama o Brasil
Aldir ressalta as nuvens que chupam manchas torturadas, afaga a pátria-mãe gentil, reforça a nossa sempre meio desequilibrada esperança, nos faz lembrar das pedras pisadas no cais
Se eu fosse médico como Aldir Blanc, receitaria doses diárias e comedidas de canções de sua autoria para os atacados por ódio, burrice, teimosia, rancor, egoísmo, inveja, recalques variados, desprazeres mil, raivas desmedidas e aversão ao conhecimento, à ciência, à arte, ao amor e à poesia.
Sim, doses pequenas, suficientes para encantar, mas não assustar os mais renitentes; não afogá-los na beleza, na destreza, no lirismo surpreendente e com frequência malcomportado e incômodo como — impossível não usar a imagem que ele criou — band-aid no calcanhar.
Quinta passada, em meio ao fala com fala, bala com bala e tapas virtuais disparados nos tribunais de Brasília e estalados nos estúdios da Globo, Guinga, Moacyr Luz e Zé Renato ocuparam seus pódios no palco do Teatro Rival, no centro do Rio, para homenagear Aldir, nascido há 80 anos e morto na pandemia que por aqui desfilou pelo tapete do negacionismo.
Roteirizado e dirigido por Marcus Fernando, o show é contido, discreto e impactante. Aqueles três senhores sentados, recolhidos atrás de estantes e microfones, parecem querer deixar explícito que a estrela da noite é Aldir. É como se o chamassem para baixar entre nós, nos encantar, surpreender, fazer rir, chorar e ajudar a engolir tantas misérias, como em "Só dói quando eu Rio", dele e do Moacyr:
A minha história
Escorre aqui
Há quem não se importe
Mas a Zona Norte
É feito cigana lendo a minha sorte
Sempre que nos vemos ela diz
Quanto eu sofri
Mais do que testemunha, tradutor, intérprete e cronista das realidades que o cercam, Aldir — e o verbo vai no presente — é também personagem. Quando fala do outro, parece falar de si, coloca-se no lugar daquele que busca descrever.
Ele não é o observador que, numa noite fria e chuvosa, passa pela Mem de Sá e vê um bêbado entornando conhaque barato num botequim vagabundo qualquer. Ele está no tal bar, ao lado do bebum que, talvez, seja ele próprio.
Como não ver Aldir no narrador de "Vida noturna" (composta com João Bosco)?
Acendo um cigarro
Molhado de chuva até os ossos
E alguém me pede fogo
É um dos nossos
Eu sigo na chuva de mão no bolso e sorrio
Eu estou de bem comigo e isto é difícil
Mais do que imaginá-lo, como não nos vermos, cambaleando na rua com o peso de carregar no bolso uma carta, uma estúpida esponja de pó-de-arroz e um retrato que vale muito mais do que já fomos? Tantas vezes nos descobrimos boias-frias, a ponto de sentirmos o gosto do sonhado bife à cavalo, batata frita e goiabada cascão com muito queijo.
Graças ao Aldir conseguimos rir de tantas de nossas dores; nós, sardinhas de balcão que, na falta de melhor alternativa, achamos até melhor seguir mofando entre o torresmo e a moela (como na canção composta com Maurício Tapajós).
Em tempos tão preocupantes, em que a chuva que não larga o nosso pé parece nos querer lembrar do risco representado pelo flerte com a brutalidade e pelo culto ao desumano, Aldir tira flechas do nosso peito, ressalta as nuvens que chupam manchas torturadas, afaga a pátria-mãe gentil, enxuga lágrimas de Marias e Clarisses reforça a nossa sempre meio desequilibrada esperança, nos faz lembrar das pedras pisadas no cais, exalta as tantas lutas inglórias que não podem ser esquecidas.
Salve Aldir, um dos nossos. Ele que insiste na necessidade, na importância e na beleza de o Brasil conhecer o Brasil. Do Rival (onde voltam a cantar no dia 25 de novembro), Moacyr, Zé Renato e Guinga mandaram um SOS ao Brasil que merece o Brasil.