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Toda calçada tem um Pituca pra nos ensinar algo

Aquele homem tinha uma história. Provavelmente dura, possivelmente traumática, mas uma história

Por por Fred soares @fredaosoares

Saí de madrugada atrás de suco de tangerina em um dia da semana passada. Coisa de quem passou a vida em redação e nunca aprendeu a dormir em hora de gente. No Rio sobraram poucos supermercados que ficam abertos a noite inteira, e eu conheço um deles de olhos fechados, ali na Rua Machado de Assis, no Flamengo.

Já na saída, com as garrafinhas geladas na mão, ouvi o grito. Do outro lado da calçada, um homem em situação de rua esbravejava contra um ex-comandante de algum grupamento militar sediado na cidade. Xingava o sujeito de todos os jeitos que a língua permite, e a

língua permite muitos. Eu, bem acompanhado naquela noite, fiquei parado tentando decifrar a mensagem que vinha embrulhada nos gritos. Nome, patente, batalhão: nada. Não descobri contra quem era aquela raiva.

Descobri outra coisa, e essa me acompanhou até em casa. Aquele homem tinha uma história. Provavelmente dura, possivelmente traumática, mas uma história. Ninguém grita daquele jeito por nada. Afinal, todos têm uma história. Todos temos.

A minha, por exemplo, tem um capítulo que começa num portão de garagem. Era 1992, e eu tinha acabado de ganhar a carteira de motorista e um Gol branco, sem ar-condicionado, pago em 24 prestações que eu chamava de liberdade. Voltava da faculdade e das boemias com a aurora de braço dado comigo, e abria a garagem à mão.

Ele estava sempre lá, sentado no chão, à direita da entrada, na Rua Edmundo Lins, em Copacabana. Roupa remendada, cheiro de cachaça da véspera e um bom dia que eu nunca ouvi igual. Chamava-se Pituca. Pelo menos era assim que atendia.

No começo, deixava uns trocados. Achei que era isso que ele queria. Demorei semanas para entender que o pedido era outro: alguém que o ouvisse. Passei a incluir a resenha com o Pituca no roteiro da noite, depois do último papo de bar e antes da cama. Ele nasceu e

cresceu no Catete. Casou cedo com uma mulher por quem era louco, teve filhos, teve uma vida confortável. Um dia o amor dela acabou. O dele, não. Ela foi embora e levou as crianças, e sobrou a pinga, dois dedinhos de cada vez, até a rua virar endereço.

Nunca o convenci de nada. Tentei, ele sorria, e a conversa seguia. Acabei aprendendo a respeitar. Em troca, ganhei um guarda-costas de canivete reluzente na mão esquerda, de plantão até eu trancar o portão. Vagabundo nenhum se criou perto de mim enquanto o Pituca esteve ali.

Anos depois, virei estagiário do JB e passei a esperar as rotativas cuspirem o jornal do dia seguinte. Levava exemplares pra minha mãe, pro porteiro, pro papagaio. Pituca reparou na pilha no banco do carona. Disse que não lia jornal desde que saíra de casa, sabia que as notas de dinheiro mudavam toda hora, que o último presidente de que se lembrava tinha cara de brabo e nome de alemão. E pediu um exemplar. "Eu sei ler", avisou, com um orgulho que me desarmou. Virou missão diária. Ele leu jornal quase todo dia até 2009, quando mudei de apartamento e nunca mais o vi. Depois soube que tinha partido.

Lembrei dele diante do homem da calçada no Flamengo. Não sei que fardas cruzaram o caminho daquele grito. Sei que o tempo do Pituca também passou por um presidente de cara brava, e que ele não tinha casa para onde voltar.

O Pituca teria atravessado a rua. Eu fiquei do meu lado, com a garrafa de tangerina suando na mão, ouvindo. É pouco, eu sei. Mas foi ele quem me ensinou que ouvir já é começar.

"Eu sei ler", dizia o Pituca, cheio de orgulho. Eu ainda sei, mesmo quando a letra vem aos gritos, de madrugada, do outro lado da rua.

Salve Pituca. Salve todo o povo da rua!