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LINHAS DE FUGA: Mentiroso, um ator

Por ALDO TAVARES

Sem dualismos, o ser e o não-ser misturam-se na mesma figura — o mentiroso-ator cujo rosto-palavra não permite separar verdade de mentira

Aproxima-se o primeiro turno. Pressinto o frio. Medo. Sinais indicam que a extrema direita será maioria. Enquanto isso, a inocência jornalística propaga Fato ou Fake, o que me faz lembrar Aristóteles com sua tabela da verdade, tão marcada pela dicotomia verdadeiro ou falso.

Para além dessa lógica identitária, o mentiroso é ator político que diz sem ser o que diz, em outros termos, o-que-diz-ser-não-é. O mentiroso, portanto, deixa à mostra o-que-é e, ao mesmo tempo, o-que-não-é. Não há dualismo. Não há dicotomia.

Não se trata, portanto, de haver separação entre "ser" (verdade) e "não-ser" (mentira), como o senhor Senso Comum tem o hábito de asseverar, porque o mentiroso mistura "ser" e "não-ser", afinal, "o-que-diz-ser-não-é" e "o-que-não-diz-ser-é". Ao falar às claras, o mentiroso oculta-se.

Traidor, eis o representante da mentira; é ele quem, além de deixar a realidade misturada, não deixa de ser a própria mistura no próprio rosto-palavra, sendo impossível saber se ele "é" ou se "não-é". Os traços de sua face dizem a "verdade", por isso uma massa de eleitores tende a se identificar com ele, pois o traidor fala a "verdade" com a intensa emoção de Amor por Deus, de Amor pela Pátria e de Amor pela Família, e com a intensa emoção de ódio pelo inimigo. Infantilizada, a massa é incapaz de perceber que o traidor ajusta a mentira à verdade.

Não existe fato ou fake, não há dualismo, já que o mentiroso, que se serve do fato, isto é, que se serve da representação, deixa sempre uma "verdade" para quem tende a acreditar em seu rosto-palavra. O traidor diz a "verdade", na medida em que a mentira se ajusta à verdade ou o não-ser se ajusta ao ser. O traidor não é isso ou aquilo. Ele é, ao mesmo tempo, isso-e-aquilo, sendo nem um nem outro. Não há dualismo, e sim a graduação do mesmo ou a diferença do mesmo.

Sabemos: a realidade política só chega a nós pela linguagem, e essa realidade, para milhões de eleitores, já é mistura, o que significa afirmar que o fato (ou a representação), transmitido pela TV, "é-e-não-é". Paradoxo.

Outra questão: a luta política entre polos antagônicos já colapsou a própria linguagem por causa da violência emitida por ela. Assim, estando a linguagem colapsada porque se serviram dela a fim de violentar, chegamos ao ponto em que a razão não encontra mais equilíbrio na própria linguagem, e necessitamos de equilíbrio para que haja oposição enquanto qualificadora de ideias públicas. Chegamos ao insólito: não há oposição porque tudo é mistura.

Palavras perderam sentido. Apenas vigora o que é imposto por quem fala e, quando digo imposto por um Eu, a segunda violência - a corpórea - é a única resposta dos antagônicos por ser imediata, por ser direta, afinal, a intermediação entre mim e o outro, a linguagem, já é cadáver. Há anos, antagônicos chutam o cadáver.

Caso o senhor Senso Comum exija de mim dualismo, nego-o: a mentira é muito mais plástica do que a verdade, pois, na condição de "ser-e-não-ser", a mentira não deixa de ser verdade, mas verdade outra da mesma verdade. A mentira diz a verdade.

Abro "Humano Demasiado Humano": "306. Os médicos mais perigosos são os que, atores natos, imitam o médico nato com o perfeito dom de iludir". Parafraseio Nietzsche: o político mais perigoso é o que, ator nato, imita o político nato com o perfeito dom de iludir. A extrema direita sempre soube iludir, soube sempre ser lúdica: jogar. Pressinto o frio no primeiro turno.