SÓ CARIOQUICES: A ópera de fevereiro

Por por Fred soares @fredaosoares

Imagem do desfile da Unidos de Viradouro, a campeã do carnaval 2026

Com a final da Grande Rio, no último domingo, fechou-se a conta: os doze sambas-enredo do Grupo Especial para 2027 estão na rua. Passei os últimos dias ouvindo um atrás do outro e aviso logo: isto aqui não é crítica musical. Não vou dizer qual refrão levanta a arquibancada nem qual melodia é a mais impactante. Minha conversa é com a dramaturgia desses sambas, com o jeito como cada um conta a sua história. E nesse aspecto a safra me pegou. Positivamente.

Samba-enredo é parente próximo da ópera. Na ópera, a música não acompanha a cena. Ela é a cena. Quando Verdi quer que a plateia pressinta a tragédia, não espera o libreto avisar: a orquestra escurece antes. O compositor de escola de samba trabalha com a mesma matéria-prima. Precisa fazer caber um enredo inteiro em alguns versos, e a melodia tem de dizer ao folião em que ponto da história ele está.

Nos doze sambas de 2027, esse cuidado aparece. Os compositores conseguiram destrinchar os temas, capítulo por capítulo, com poesia, deixando a melodia falar também. Na Unidos da Tijuca, que vai ao sertão do Ceará, há passagens em que o samba ganha uma levada nordestina, e dá quase para ouvir a sanfona por trás do cavaquinho. Na Vila Isabel, o sofrimento de Bibiana e Belonísia, as irmãs de "Torto Arado", aparece em certas passagens da melodia, que pesam como quem carrega a terra nas costas. Nos enredos de matriz africana, como na Viradouro e Imperatriz, em algum momento a melodia se curva e vira lamento, aquele canto arrastado que atravessou o mar e ficou. É ofício de quem estudou, e esse ofício vem se refinando nas quadras ano após ano.

A outra coisa que salta do conjunto é o Brasil. A Beija-Flor vai ao Marajó buscar a pajé Zeneida. A Tijuca atravessa o sertão do Ceará atrás da cabeça de Santo Antônio que Socorro Acioli transformou em romance. A Vila Isabel planta na pista a Chapada Diamantina de "Torto Arado". A Imperatriz desce ao Pina, no Recife, para contar o sumiço de Dona Júlia, calunga do Maracatu Porto Rico que ficou mais de trinta anos desaparecida até voltar para a sua nação.

A Mangueira canta Oyá. O Salgueiro revisita Xica da Silva e a história por trás da história. O Tuiuti devolve Tia Ciata à casa de onde o samba saiu. A Portela reverencia Monarco, e a União de Maricá estreia na elite com Darcy Ribeiro, o antropólogo que gastou a vida tentando explicar quem somos.

Até quem olha para fora acaba olhando para dentro. A Viradouro, com seus griôs, e a Grande Rio, com os libertos que voltaram do Brasil para a Costa do Ouro, falam da África que nos fez e que também ajudamos a refazer. A Mocidade vira o mapa de cabeça para baixo, à maneira do uruguaio Torres García, e lembra que o nosso norte é o Sul.

Acompanho desfile desde os anos 80 e sei que tem ano bom e ano ruim de samba. Isso a avenida decide em fevereiro, não o colunista em setembro. O que dá para dizer agora é que poucas vezes o país chegou tão inteiro a um carnaval.

Entre 7 e 9 de fevereiro, a Marquês de Sapucaí volta a ser o que é há tanto tempo: o lugar onde o Brasil se conta. Cabem ali a pajé do Marajó e a boneca do Pina, o santo do sertão e a senhora dos ventos, a mãe preta da Praça Onze e o velho portelense de fala mansa. Um país inteiro num pedaço de asfalto de setecentos metros.

Se a ópera de fevereiro cumprir o que promete a partitura de setembro, a gente sai dela sabendo um pouco mais de onde veio.