Thiago Soares revisita "Carmem" e leva ao palco uma personagem guiada pela liberdade

Bailarino e coreógrafo retorna ao Rio com releitura do clássico de Bizet e aposta em uma Carmem que questiona a ideia de amor como posse

Por Rafael Lima

Cena de "Carmem", espetáculo de Thiago Soares que revisita o clássico de Bizet a partir de uma perspectiva latino-americana, combinando balé clássico, dança contemporânea e teatralidade

Um dos principais nomes da dança brasileira no cenário internacional, Thiago Soares retorna ao Rio de Janeiro com uma nova leitura de “Carmem”, clássico de Georges Bizet que ganha uma abordagem latino-americana pelas mãos do bailarino, coreógrafo e diretor artístico. As apresentações acontecem nesta quarta-feira (17) e na sexta-feira (19), às 20h, no Teatro Multiplan, no VillageMall, na Barra da Tijuca.

Criada para a Cia. de Dança Thiago Soares, a montagem combina a técnica clássica com a dança contemporânea, linguagens urbanas e teatralidade. A primeira bailarina do San Francisco Ballet, Sasha De Sola, participa das duas apresentações como convidada especial, marcando sua estreia nos palcos brasileiros.

Para Thiago, revisitar “Carmem” nos dias atuais significa necessariamente olhar para a personagem de outra maneira. A história, conhecida por apresentar uma mulher associada ao desejo, à sensualidade e à insubmissão, passa a ser conduzida pela discussão sobre liberdade e relações de poder.

Divulgação/Cainã Dittrich - Bailarino e coreógrafo, Thiago Soares criou a companhia que leva seu nome para unir formação clássica, dança contemporânea e elementos da cultura brasileira

“É impossível você revisitar uma obra como Carmem hoje e olhar para ela exatamente da mesma maneira que ela foi olhada durante tantos anos”, afirma.

Na versão criada pelo artista, a liberdade da personagem não aparece apenas como uma ideia, mas como parte da própria construção corporal da bailarina. Carmem é apresentada como uma mulher que escolhe, deseja, muda de ideia e se recusa a pertencer a alguém. A relação com José, marcada inicialmente pela paixão, ganha novos contornos quando entram em cena o ciúme, o controle e a tentativa de transformar o afeto em posse.

“Por que a liberdade dessa mulher provoca tanto? Por que uma mulher que escolhe, deseja, muda de ideia, vai embora, precisa necessariamente ser castigada por isso?”, questiona Thiago.

A reflexão também está ligada à experiência pessoal e à maturidade do artista. Ao longo dos anos, Thiago diz ter passado a observar de outra forma as relações e a própria ideia de amor. “A gente vai vivendo, tendo relações, observando as relações ao nosso redor e entendendo que amor não é posse. Desejo não dá direito sobre ninguém”, explica.

Por isso, a montagem não pretende simplesmente reproduzir a imagem tradicional da mulher fatal. “Eu não queria contar a história de uma mulher ‘fatal’ simplesmente. Queria olhar para uma mulher que escolhe viver de acordo com aquilo que sente e que paga um preço altíssimo por não aceitar pertencer a alguém”, diz.

A concepção também passa pelo corpo. A movimentação da personagem busca traduzir sua autonomia e sua força por meio da maneira como ela ocupa o espaço, estabelece relações e reage aos demais personagens. “A liberdade dela não é uma ideia abstrata. Está no corpo, na maneira como ela ocupa o espaço, como escolhe, como deseja e como diz não”, afirma o coreógrafo.

Da carreira internacional à criação no Brasil

Nascido em São Gonçalo e criado no Rio de Janeiro, Thiago Soares começou na dança de rua e no hip-hop antes de ingressar no balé clássico, aos 15 anos. Dois anos depois, já integrava o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 2001, conquistou a medalha de ouro no Concurso Internacional de Ballet de Moscou.

Divulgação/Cainã Dittrich - Thiago Soares retorna ao Rio de Janeiro com sua releitura de "Carmem", clássico de Georges Bizet que ganha uma abordagem latino-americana e contemporânea

No ano seguinte, foi para o The Royal Ballet, em Londres, onde se tornou Principal Dancer em 2006. Ao longo da carreira internacional, interpretou personagens de obras como “Romeu e Julieta”, “O Lago dos Cisnes”, “Giselle”, “A Bela Adormecida”, “Manon”, “Mayerling” e “Onegin”. Em 2004, recebeu o prêmio de Outstanding Male Artist na categoria clássica do Critics’ Circle National Dance Awards, no Reino Unido.

Depois de anos construindo a carreira fora do país, porém, o bailarino passou a sentir que sua trajetória individual já não era suficiente. A decisão de voltar ao Brasil e criar uma companhia nasceu justamente dessa inquietação.

“Chegou um momento em que só a minha carreira já não era suficiente para mim”, conta. “Eu tive oportunidades extraordinárias fora do Brasil, trabalhei com artistas que mudaram a minha maneira de enxergar a dança e subi em palcos que eu sonhava conhecer. E comecei a pensar: o que eu faço com tudo isso que recebi?”

A resposta veio na criação da Cia. de Dança Thiago Soares, fundada em 2025 e sediada na Barra da Tijuca. O grupo mantém uma rotina de aulas, preparação técnica, ensaios e criação de repertório, além de trabalhar na formação e profissionalização de jovens bailarinos.

Para Thiago, o Brasil reúne características próprias que podem ser incorporadas à formação de artistas capazes de atuar internacionalmente. Ele destaca a musicalidade, a personalidade e a capacidade de adaptação dos bailarinos brasileiros, além de uma identidade que não precisa abandonar suas características para alcançar reconhecimento fora do país.

“O Brasil tem bailarinos incríveis. Tem corpo, musicalidade, personalidade, uma capacidade de adaptação enorme e, principalmente, uma identidade que não precisa tentar parecer europeia para ter valor”, afirma.

A proposta da companhia, segundo o artista, é justamente aproximar o rigor da formação clássica da identidade brasileira. “Eu quero que um bailarino brasileiro tenha uma formação técnica muito forte, tenha rigor, disciplina, conheça o repertório, mas que não precise abandonar aquilo que ele é para ocupar um palco internacional.”

É uma mudança de perspectiva na trajetória de quem passou anos fazendo o caminho inverso. “Eu já fui o brasileiro que saiu daqui para encontrar o mundo. Talvez agora seja a hora de tentar fazer um pouco desse mundo olhar para o que está sendo criado aqui”, resume.

Encontro de gerações internacionais

A temporada carioca de “Carmem” também marca o encontro de Thiago com Sasha De Sola. Primeira bailarina do San Francisco Ballet, a artista integra a companhia norte-americana desde 2007 e foi promovida a Principal Dancer em 2017.

Divulgação - Primeira bailarina do San Francisco Ballet, Sasha De Sola, participa das duas apresentações

Em seu repertório estão personagens como Aurora, de “A Bela Adormecida”, e Kitri, de “Dom Quixote”, além de obras como “O Lago dos Cisnes”, “Giselle”, “Romeu e Julieta”, “O Quebra-Nozes” e “Onegin”. Sua participação em “Carmem” marca a estreia da bailarina nos palcos brasileiros.

A montagem representa, assim, mais um passo no projeto de Thiago Soares de construir uma companhia brasileira conectada à produção internacional, mas sem abrir mão de uma identidade própria.

Após a temporada no Rio, a Cia. de Dança Thiago Soares pretende ampliar a circulação de seu repertório e desenvolver intercâmbios com outros artistas e instituições. Entre os projetos está uma montagem de “O Quebra-Nozes”, dando continuidade à proposta de consolidar uma estrutura dedicada à criação, formação e profissionalização de bailarinos no Brasil.

“Quando olho para a companhia hoje, o que mais me interessa é justamente isso: construir uma linguagem que possa dialogar com o mundo sem perder o sotaque”, afirma Thiago.