SÓ CARIOQUICES: Ah, se não fosse o Bezerra…

Por por Fred soares @fredaosoares

Bezerra da Silva no balcão de um boteco

Toda Quarta-Feira de Cinzas tem seu ritual. Os garis ainda estão varrendo a Sapucaí e, nas quadras, já começa a conversa sobre o carnaval seguinte. Qual vai ser o enredo? Que história aguenta um ano inteiro de barracão? Foi numa dessas prosas, pouco depois do último desfile, que este colunista que aqui vos escreve resolveu dar um palpite.

Conversava com Dudu Freitas, presidente da União do Parque Acari, um guerreiro que toca a escola com a teimosia de quem sabe que nada chega de graça na Série Ouro. E soltei o nome: Bezerra da Silva. Em 2027, ele faria cem anos. Que escola teria mais legitimidade para cantá-lo do que uma agremiação nascida e criada na favela? A União tem a cara do Complexo de Acari: gente que acorda antes do sol, que pega trem lotado, que conhece de perto cada personagem que Bezerra botou no disco.

Dudu comprou a ideia. No começo de julho, a escola apresentou o enredo "Se não fosse o samba, o que seria da favela?", desenvolvido pelos carnavalescos Guilherme Diniz e Rodrigo Marques. Bateu um orgulho besta, confesso. Daqueles que a gente só divide com o leitor. Não reivindico patente, que samba não tem dono. Enredo bom é o que a escola abraça, e esse a União abraçou.

Agora chegou a vez do samba. Na parceria, dois bambas de respeito: Moacyr Luz e Fred Camacho. Moacyr, o homem do Samba do Trabalhador, que assina os sambas do Acari desde a chegada da escola à Série Ouro, em 2024, ganhou de quebra um mimo. Passou a ser o presidente da ala de compositores. Neste domingo (20), na quadra da Rua Piracambu, o samba será lançado e o mestre, homenageado. Festa com endereço certo.

Mas vamos ao dono da festa. José Bezerra da Silva nasceu no Recife, em fevereiro de 1927. Aos nove, já tocava zabumba e cantava coco. Aos 15, embarcou clandestino num navio rumo ao Rio. Foi parar no Morro do Cantagalo, trabalhou de ajudante de obra e pintor de parede, conheceu a rua e a fome antes de a música pagar as contas. Pernambucano de certidão, carioca até o último fio de cabelo.

O que ele fez depois ainda não recebeu o crédito que merece. Durante décadas, o compositor do morro não tinha vez na gravadora nem na rádio. Bezerra abriu a porta.

Gravou Adelzonilton, Criolo Doido e uma legião de autores que faziam samba no botequim, no ponto de ônibus, na laje, e que jamais veriam o próprio nome num disco. Ele era a voz. A caneta era da comunidade, e Bezerra fazia questão de dizer isso em cada entrevista.

O documentário "Onde a Coruja Dorme" foi atrás desses autores e encontrou gente simples do subúrbio e das favelas, que nunca tinha pisado num estúdio mas trazia samba guardado no bolso. Sem Bezerra, boa parte dessa obra teria morrido na mesa do bar.

E a voz vendeu. Foram onze discos de ouro e alguns de platina ao longo da carreira, coisa rara para quem cantava partido-alto com sotaque malandreado. Chamaram-no de cantor de bandido. Ele rebatia que só cantava a realidade. E cantava mesmo: o malandro e o mané, o dedo-duro, a polícia subindo o morro, o candidato que só aparece em ano de eleição. Tudo com humor, duplo sentido e uma precisão que muito sociólogo de gabinete nunca alcançou. Bezerra foi o cronista de um Rio que o asfalto preferia não ver. Por causa dele, o asfalto teve que ouvir.

Bezerra morreu em janeiro de 2005. Em 2027, a União do Parque Acari encerra os desfiles da Série Ouro levando o centenário dele para a Avenida. A pergunta do enredo tem resposta fácil para quem conhece Acari: sem o samba, a favela seria só aquilo que o noticiário mostra. Com Bezerra, virou crônica. A real face de uma cidade da beleza, mas também do caos.