Richard Riguetti: 'O palhaço é como um maracujá: quanto mais enrugado, mais doce'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Richard Riguetti, criador da Eslipa, uma escola de palhaçaria

Num tempo em que rir pode ser também uma forma de resistência, Richard Riguetti atribui ao palhaço a missão de promover a "reconstituição do tecido emocional da população". Com 47 anos dedicados ao teatro circense e à poética da palhaçaria, o ator, diretor e gestor cultural comanda a Eslipa. Esse é o nome da Escola Livre de Palhaço, criada em 2012 e hoje convertida num polo de intercâmbio latino-americano dessa linguagem.

A instituição encerra a trajetória da Turma Erminia Silva no próximo sábado (19), às 19h, com sua tradicional Palhaçatura, na Escola Nacional de Circo Luiz Olimecha, na Praça da Bandeira. Gratuita, a celebração reúne cenas circenses, performances, lançamentos de livros e a participação de egressos de diferentes turmas.

O curso mobilizou cerca de 20 artistas do Brasil e de outros países da América Latina, ao longo de quatro meses de formação, qualificação e aperfeiçoamento. Durante esse período, mais de 20 artistas do Brasil e da América Latina fizeram aulas com mestras e mestres como Glaucy Fragoso, Fran Marinho, Lili Castro e Ricardo Puccetti, lembrando que a menor máscara do mundo é o nariz vermelho dos trapalhões que saltitam nos circos... e mambembam na vida.

À frente dessa experiência pedagógica, Riguetti defende que não existe propriamente uma conclusão para o aprendizado do ofício. Ao Correio da Manhã, ele explica por que o erro, a utopia e a capacidade de aproximar pessoas fazem do picadeiro (qualquer que seja, ao ar livre ou sob lona) são essenciais para se rir no Brasil de hoje.

E o palhaço, o que é... é ladrão de... sorrisos? Qual é o papel da palhaçaria nos tempos atuais? Ou, nos códigos de uma sociedade capitalista... pra que serve um palhaço?

Richard Riguetti - E o palhaço o que é? É ladrão de mulher, ladrão de sorrisos? Na nossa concepção da Escola Livre de Palhaços, a Eslipa, o palhaço é a menor distância entre duas pessoas, a começar do próprio palhaço. A função do palhaço na sociedade capitalista é a reconstituição do tecido emocional da população. O palhaço é aquele que fala das pessoas de baixo. Ele é que nem o Rio Amazonas. Ele só é grande porque ele se coloca abaixo dos outros rios. E nisso ele recebe a influência de todas as outras linguagens. O palhaço contém o teatro, contém o circo, contém a dança, contém a música. E assim, ele se transforma numa linguagem única e universal. A grande colaboração do palhaço nos dias de hoje é fazer com que as pessoas se sintam potentes nos seus desejos e nos seus objetivos, nos seus sonhos e nas suas utopias. O palhaço é aquele que ao trabalhar com o erro demonstra para a sociedade que nós somos feitos de tentativas. O mais importante é a gente não desistir.

O que a palhaçatura simboliza na formação de um artista?

A palhaçatura da Eslipa é um rito de passagem, é uma celebração. Não é a uma formação, porque entendemos que a formação do palhaço/da palhaça se dá durante toda a sua vida. O palhaço é como um maracujá: quanto mais enrugado, mais doce ele é. Então, a palhaçatura é apenas um rito de passagem. Mas também significa uma formação, entre aspas, para celebrar o final desse percurso. Então, temos muito que celebrar.

Qual é o papel social da Eslipa hoje na formação artística do Rio de Janeiro?

O Rio de Janeiro recebe, nesta turma de 2026, alunos de sete países. Então, a cidade recebe artistas de outros territórios. São linguagens múltiplas a se misturar com essa arte carioca que é tão potente: a palhaçada.

Na última segunda, a Eslipa promoveu uma palestra sobre circo-teatro, ministrada por Ana Luiza Cardozo e Leticia Lisboa. Qual é o mote desse estudo?

O circo-teatro sempre foi muito importante na concepção histórica das artes cênicas, desde Benjamim de Oliveira, de Catulo da Paixão Cearense e de tantos outros artistas que celebraram e que se firmaram nessa linguagem tão brasileira. Então, o mote desse nosso seminário é resgatar o elo perdido dessa geração mais nova com o circo teatro de antigamente.