SEGUNDA NO 2: O Neguinho da Beija-Flor e do Rio de Janeiro
Cantor e compositor é homenageado em musical que estreou semana passada no Teatro João Caetano, no centro do Rio
O cantor e compositor Neguinho da Beija-Flor é uma daquelas pessoas que desafiam o ar blasé de cariocas diante de personalidades. Ex-capital por quase 200 anos — da Colônia, dos impérios português e brasileiro, da república —, sede da então poderosa rádio Nacional, do Cassino da Urca, da Atlântida, da Cinédia e da Rede Globo, o Rio aprendeu a esbarrar com personalidades na praia, na rua, por aí.
Talvez até para não espantá-los, a cidade cultivou uma espécie de etiqueta em relação a tantos famosos, aprendeu a, dentro do possível, fingir indiferença e, assim, deixá-los mais à vontade. Nos tempos pré-internet e redes sociais, dizia-se que, caso tivesse vindo ao Rio, Charles Chaplin seria, no início, tratado com a devida deferência. Se prolongasse a temporada por mais de uma semana, receberia olhares tortos e motivaria comentários do tipo "Putz, lá vem aquele chato do Carlitos...".
Há alguns anos, um banco exibiu um comercial em que Delegado, o grande mestre-sala de Mangueira, entrava em uma agência no Rio e despertava a atenção de todos. Dois paulistas que também estavam por lá não o reconheceram e se espantaram com o oba-oba em torno da senhor magro e elegante. Travam então um diálogo mais ou menos assim:
— Meu, quem é esse sujeito?
— Sei lá, mas pra carioca ter essa reação, deve ser muito importante.
Neguinho é um desses caras. Ao lado de sua parceira de tantos carnavais na Beija-Flor de Nilópolis, a porta-bandeira Selminha Sorriso, o maior dos intérpretes de escolas de samba desde Jamelão é uma figura capaz de parar os mais diversos ambientes do Rio, desde os mais humildes aos mais ricos.
É impossível ficar alheio a esse senhor de 77 anos, dono do que Roberto Carlos classificou de "maior sorriso do samba". Ao longo de 50 anos, ele marcou presença nos desfiles da escola que, em 1976, mudou o Carnaval carioca com "Sonhar com rei dá leão", enredo de Joãosinho Trinta embalado por um ótimo samba do próprio Neguinho.
Diferentemente do que ocorre com clubes de futebol, a rivalidade no samba é bem mais permeável. Os mais apaixonados torcedores de uma escola não deixam de aplaudir desfiles e reconhecer talentos das concorrentes. Ao longo dos anos, Neguinho passou a ser identificado como tradutor e intérprete do que o Rio tem de melhor. Personifica também os perrengues e sonhos da maioria de seus conterrâneos. Negro, nascido no Rio, na Casa da Mãe Pobre, criado em Nova Iguaçu, o cantor é dono de uma história improvável de sucesso.
Visto principalmente como a voz da Beija-Flor, tem como maiores sucessos um quase bolero, "Ângela" ("Negra Ângela..."), composição de Serginho Meriti e Carlos Alexandre, e "O campeão" — impossível ir ao Maraca sem cantarolar este hino que ele escreveu. Sinônimo de alegria rasgada, comoveu milhões de pessoas ao tornar público um câncer no intestino; o tratamento não o impediu de desfilar em 2009. Sua recuperação reforçou a nossa chance de dar improváveis voltas por cima.
Ativo na luta contra o racismo, gravou "Problema social", de Guará e Fernandinho ("Se eu pudesse/ eu não seria um problema social") e "Menino de pé no chão", de Helinho do Salgueiro e Jarbas de Souza. Nunca deixou de dizer de que lado está e o que representa.
O artista, que no ano passado pendurou o microfone da Beija-Flor, continua em forma, como mostrou no show que, no início do mês, fez no Teatro Rival. E, desde a semana passada, é personagem de "O Neguinho da Beija-Flor - Musical", estrelado por Izak Dahora, dirigido por Luiz Antonio Pilar e escrito por Aydano André Motta. A montagem, que está no Teatro João Caetano, trata de sua vida, apresenta seus grandes sucessos, celebra a escola que lhe cedeu o sobrenome — olha o Neguinho do Rio de Janeiro aí, gente!