SÓ CARIOQUICES - Mayrink Veiga: graças a seus microfones o Brasil ficou mais carioca
O Rio de Janeiro recebeu, ao longo das décadas, o selo de capital cultural do país. Foi capital federal até 1960 e, por isso, o que nascia aqui reverberava Brasil afora - as modas, as gírias, as manias. Nesse arranjo, a música ocupava a posição dianteira, sobretudo depois que a Era do Rádio transformou as antenas cariocas na porta de entrada da canção brasileira. Um artista só existia de verdade quando sua voz saía de um transmissor do Centro do Rio e chegava a uma sala de jantar em Belém ou a um armazém no interior de Minas.
Passou despercebido, este ano, um marco dessa história: em janeiro completaram-se cem anos da fundação da Rádio Mayrink Veiga, a primeira grande emissora comercial do país.
A origem tem algo de prosaico. A Mayrink Veiga & Companhia era uma casa de importação e exportação instalada na Rua Municipal, no Centro. A estação nasceu como departamento da loja, meio propaganda, meio brinquedo caro do patrão. Enquanto Roquette-Pinto sonhava com o rádio como escola do povo, a Casa Mayrink Veiga descobria, sem cerimônia, que aquilo dava dinheiro. A rua depois trocaria de nome: Mayrink Veiga, nome que perdura até hoje.
O salto veio em 1933, com César Ladeira na direção artística. Voz solene e cabeça de empresário, Ladeira inventou o que hoje chamaríamos de indústria: elenco contratado, proibição de bico em emissora rival, programas de quinze minutos e alcunhas que grudaram para sempre. Francisco Alves virou o Rei da Voz. Uma moça nascida em Portugal e criada na Lapa, primeira artista a assinar contrato de exclusividade na radiofonia brasileira, virou a Pequena Notável e saiu dali para o mundo. O nome dela? Carmen Miranda.
Pelo microfone da PRA-9 passaram Noel Rosa, Sílvio Caldas, Vicente Celestino, Aurora Miranda, Mário Reis, Moreira da Silva, Carlos Galhardo, Lamartine Babo - o mesmo Lalá que anos depois daria hinos aos clubes cariocas.
A emissora tinha até hino próprio, gravado por Carlos Galhardo, cujos versos formavam em acróstico o prefixo da casa e proclamavam o orgulho de ser "mayrinkiano".
O trono durou pouco. A Rádio Nacional chegou em 1936 e, nos anos 40, com dinheiro federal, levou os astros e o próprio César Ladeira. A Mayrink resistiu no humor, resistiu na música, e nos anos 60 encontrou outra vocação: virou tribuna. Leonel Brizola ocupava seus microfones quase diariamente para prometer as reformas de base "na lei ou na marra", e a emissora se engajou na Cadeia da Legalidade, que completou 65 anos esta semana.
Cobrou-se caro por isso. Em 1º de abril de 1964, a rádio ficou no ar defendendo Jango até o fim da tarde. Conta-se que o último programa era um humorístico, com o ator Zé Trindade em cena, quando um tenente entrou no auditório gritando que tinha acabado, que a rádio saíra do ar. A plateia riu, achando que fazia parte do quadro. Em 1965 veio a cassação definitiva, e boa parte do acervo virou pó.
Cem anos depois, quem passa pela rua Mayrink Veiga não ouve nada. Restou o nome de uma loja que virou rádio, e de uma rádio que virou silêncio. Ondas não deixam ruínas. É preciso alguém para lembrar que passaram por ali e ajudam a construir a memória e a cultura do Rio de Janeiro.