LINHAS DE FUGA: Nietzsche, 126 anos

Por ALDO TAVARES

O pensador Friederich Nietzsche defendia que o ser humano deveria construir o próprio sentido da vida

Todo lobo é matilha. Todo nome, muitos. Todo Eu, multiplicidade. Platô 1 (p. 17): Deleuze-e-Guattari entrelinham o EU: "(…) em que já não tem qualquer importância dizer ou não dizer EU. (...). Fomos ajudados, aspirados, multiplicados". O nome, matilha. Um livro não tem sujeito. Então, "por que preservamos nossos nomes?. Por hábito, exclusivamente por hábito". Agradável falar como todo mundo; afinal, precisamos encontrar alguém, identificar, embora a identidade seja o movimento se fingindo de "ser", fingindo-se de imóvel.

Hoje, após 126 anos, a matilha-Nietzsche repousa em seus jazigos, os livros, é onde encontramos seus restos mortais: os conceitos. Outra vez, abro uma de suas lápidas no Jardim da Saudade, minha biblioteca, e sinto o aroma de um pensamento que respira. O lobo-Nietzsche é matilha a seguir trilhas conceituais que fogem ao dualismo, pois seu Zaratustra, que nega a dicotomia bem e mal, cria passagens "entre" signos contrários. Só é possível ir "Além do Bem e do Mal" se o pensamento movimentar-se "entre-dois", é de onde o devir-bobo do papa cria o terceiro elemento, relido em Assim falava Zaratustra como terceira metamorfose, ela: terceiro incluído - a criança.

Apenas capaz de combater o "poder-entre" do sacerdote é a criança, o que não significa convocar inocentes de creches para marcharem à Catedral Basílica de Nossa Senhora de Aparecida. Não me refiro à criança da história ou da sociologia, e sim à da filosofia deleuzo-guattariana, onde ela é rizoma, linha de fuga. Assim, com tamanha filosofia, e sem história, e sem sociologia, compreendo em Assim falava Zaratustra a criança como terceira metamorfose, potência intermediária.

Ora menos, ora mais, o dualismo jamais deixou de pulsar na política, aliás, doença de que se serviu sempre a extrema direita com a finalidade de se movimentar "entre" opostos. A ditadura cívico-militar pós-64, maior exemplo: estimulou o maniqueísmo, e a oposição caiu na armadilha do combate-entre de cabo Anselmo e de Severino Theodoro de Mello, só para ficarmos com dois exemplos. Se o senso comum [história e sociologia] não escreve livros sobre o poder-entre, é porque não leu Nietzsche e, se leu, não entendeu a profunda filosofia política a pulsar em Assim falava Zaratustra.

Microfísica do poder (p. 143). Foucault afirma: "Nietzsche é o filósofo do poder", pois, diferente de Marx, que pensa o "poder-contra", o poder nietzschiano é "relação", poder-entre, por isso enigmático não pelo dualismo "visível e invisível", mas por estar "entre" "visível-e-invisível". Nietzsche está "Além do bem e do mal".

Travessa, a criança a-travessa os opostos porque é potência intermediária, por isso está "entre" a primeira metamorfose (o "Sim" do asno) e a segunda (o "Não" do leão), sendo nem "Sim" nem "Não", porém outro "Sim" do mesmo asno e outro "Não" do mesmo leão: paradoxo.

Última semana de agosto. Chega a atraente edição de Assim falava Zaratustra, tradução de Fernando R. de Moraes Barros pela Autêntica. Trata-se de um agenciamento-livro incomparavelmente vasto e profundo no campo político, já que a escritura de Nietzsche, filosófico-literária, mostra nas [entrelinhas] o ápice enigmático do poder-entre, o sacerdote, e quem combate-entre, a criança. Reabro Vontade de poder (p. 98), onde Nietzsche escreve o que não pode faltar: "um entre indispensável" - em itálico.