Pedro Asbeg, o decifrador da alma das arquibancadas

Pedro Asbeg é o cineasta que melhor entende a alma das arquibancadas brasileiras, e das cariocas em especial

Por por Fred soares @fredaosoares

Peço licença ao leitor.

Otexto de hoje vem encharcado de rubro-negrismo e não tenho como evitar. Prometo que não é uma crônica sobre o Flamengo. É sobre uma coisa maior, que o Flamengo só ajuda a explicar. Mas o vermelho e o preto vão pingar a partir daqui. Fica o aviso.

Segunda-feira à noite, Botafogo. Sala 2 da Estação Claro Rio, sessão do Cinefoot, festival que há dezesseis anos insiste numa ideia óbvia e mal aproveitada por aqui: futebol dá cinema. Dois filmes de Pedro Asbeg, um atrás do outro.

Primeiro, setenta minutos de "Onde Estiver, Estarei", que está disponível na HBO. Francisco Moraes e Cláudio Cruz, dois torcedores-craques, atravessando trinta e oito anos entre o Centenário de Montevidéu e o Monumental de Lima rumo à reconquista da Libertadores. A coincidência é quase indecente. 23 de novembro de 1981, dois gols de Zico. 23 de novembro de 2019, dois gols de Gabigol. Mesmo dia do calendário, uma vida inteira de espera no meio. Asbeg viu que a história não estava no gramado. Estava nos torcedores, principalmente naqueles dois senhores, que pegaram ônibus, avião, o que fosse, porque tinham combinado de estar lá. A câmera dele quase nunca corre atrás da bola. Fica no rosto de quem olha.

Depois, oito minutos. "O Rubro-Negrismo Racional de Arthur Muhlenberg". Arthur morreu em abril, aos 62 anos, depois de uma leucemia vencida, um transplante de medula e um pulmão que não aguentou o resto do caminho. Era publicitário de ofício e cronista por vocação. Fez o Urublog, escreveu livros que a Nação decorou, e havia gente como Zico e Gabigol lendo seus textos para saber a temperatura da arquibancada. No curta é a voz dele explicando, com a paciência e a malemolência carioca de quem já explicou aquilo mil vezes, por que alguém é rubro-negro. Asbeg não fez um obituário. Fez um bilhete de um amigo para o outro. Saí da sala com o olho vermelho (e preto). Você pode assistir em https://shorturl.at/ROELl

Pedro Asbeg é o cineasta que melhor entende a alma das arquibancadas brasileiras, e das cariocas em especial. Nasceu em Londres, filho de documentarista, e é carioca no ouvido, no olho e na escolha do que ou quem filma. Em "Geraldinos" foi atrás dos que perderam a Geral do Maracanã e, com ela, o direito de estar. Em "Democracia em Preto e Branco" mostrou que vestiário também podia ser trincheira contra a ditadura. Sempre a mesma tese: o futebol aqui não é um esporte que a cultura adotou a esmo. É parte de como essa cultura se formou. Um país que aprendeu a se narrar aos domingos, em pé ou nas arquibancadas, antes de aprender a se narrar em livros.

Eu disse isso a ele outro dia e repito aqui. Se existe Jorge Ben na música e José Lins do Rego na literatura, existe Pedro Asbeg no cinema. Cada um pelo seu meio, todos afirmando que essa paixão é matéria de arte, não folclore de arquibancada.

O que ele filma ainda está vivo. Mudado, encarecido, cercado, patrocinado, vendido em pacote de streaming. A arquibancada de hoje tem menos gente cantando e mais gente preocupada com os celulares. Mas quem estava naquela sala em Botafogo viu que o troço resiste, e resiste por causa de coisas que não entram em planilha nenhuma: a promessa de dois amigos, a viagem absurda, o costume de chegar cedo só para ver o estádio encher, o texto de um cronista que morreu e continua explicando. Em resumo, a sociabilidade dos estádios.

O Cinefoot se encerrou na última terça-feira. Pedro continua filmando. E enquanto ele filmar, a Geral não acaba. Muda de endereço, só isso. Sai do cimento e entra na tela, o único lugar onde não passa trator, não sobe ingresso e não cabe camarote. Vira a voz do Arthur explicando pela milésima vez por que alguém é rubro-negro. Vira Morais e Cláudio se abraçando em Lima para cumprir uma promessa feita trinta e oito anos antes, quando nenhum dos dois sabia que teria de esperar tanto.

Esta cidade inventou um jeito de se amar em público, aos gritos, em êxtase. Pedro guarda isso em lata de filme (ou nas nuvens digitais), e não conheço serviço mais generoso que se possa prestar ao Rio de Janeiro e à sua gente.