SÓ CARIOQUICES: Os grandes poetas da MPB que muitos não conhecem (ou fazem questão de desconhecer)

Por por Fred soares @fredaosoares

Ilustração da coluna Só Carioquices 6/8/2026

Osamba, com todas as suas vertentes, foi a solução mais pujante e criativa que o carioca já encontrou para se apresentar através da música. E dentro dele uma vertente foi mais longe ainda: o samba de enredo, em que o povo cansou de esperar que contassem a sua história e passou a contá-la ele mesmo.

Simas e Mussa, em "Samba de enredo: história e arte", cravaram a sentença: é o único gênero épico genuinamente brasileiro. Eu arriscaria uma extensão: é o épico urbano que o Ocidente deixou de produzir e fingiu não sentir falta. Homero em ritmo de bateria.

Faz-se samba de enredo no Rio, do jeito que conhecemos, há quase cem anos. Atravessou a República inteira. Ajudou a desenhar o que é ser carioca. Coisa fundadora - e quase ninguém liga.

Em algum momento, a música urbana da cidade arrumou um verniz de bom gosto e empurrou para a margem justamente o que tinha de mais seu. O samba foi para o fundo da sala. Os compositores foram atrás.

O reconhecimento que veio - pequeno, atrasado - foi arrancado no braço. Custou décadas de teimosia até Martinho da Vila, Cartola, Nelson Cavaquinho e Arlindo Cruz chegarem ao lugar que sempre foi deles.

Mas e o samba de enredo, a mais carioca das vertentes? Aposto que muita gente nunca ouviu falar de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Geraldo Babão, David Corrêa. Passemos aos vivos: Cláudio Russo, André Diniz, Samir Trindade, Junior Fionda, Lequinho... O país sabe de quem eu estou falando?

Respondo sem rodeio: de alguns dos maiores compositores populares que esta cidade já teve. Gente que escolhe a nota como quem escolhe a palavra e lapida a palavra como quem afina a nota. Não devem nada aos gigantes da MPB. Só não foram chamados para a mesma foto. O problema, desconfio, é de endereço. Para merecer o ouvido da opinião pública, a regra parece ser aparecer num bar caprichado de Ipanema ou do Leblon. Passou do Rebouças, esquece.

E a velha cantilena recomeça: tudo que é de fato popular é observado de nariz empinado por uma elite que se nomeia curadora do gosto alheio. Vocação antiga a nossa: jurar que a boa educação desce de cima, como se a rua não fosse universidade, como se a sabedoria do povo não formasse ninguém.

E quero deixar algo bem claro. Não busco aqui criar nenhum tipo de luta cultural de classes ou promover um embate social entre praia e subúrbio. Cartola era um poeta raro tanto quanto Tom Jobim era um gênio musicista. Cada qual com sua conta bancária.

O papo é outro. É sobre reconhecimento. Por que defendo isso com tanto fervor logo agora? Porque começaram os concursos de samba-enredo do próximo carnaval. E concurso de samba-enredo é, no fundo, o maior festival de música popular do país. Um manancial de arte e de informação que esses compositores entregam todo ano, e que quase ninguém divulga em larga escala em nível nacional.

Um exemplo, para não ficar no abstrato: a letra do Paraíso do Tuiuti para 2027 é uma aula de história urbana do Rio. Assinada por Cláudio Russo, Luiz Antônio Simas e Gustavo Clarão - os dois primeiros também autores do enredo -, ela conta a vida de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, a baiana de Santo Amaro que fez da própria casa o berço do samba carioca.

O samba faz as vezes de um livro. Situa a época, o contexto, e não poupa a picareta de Pereira Passos, que derrubou o Centro e expulsou os pobres em nome do progresso. Mas volta sempre ao essencial: foi ali, no terreiro dela, sob a bênção dela, que o bom samba urbano do Rio veio ao mundo. Uma aula inteira coube numa letra.

Tomara que um dia os responsáveis por tanta coisa - arte que também é ensino - recebam o reconhecimento de quem pensa, analisa e respira as artes brasileiras.

Enquanto o dia não chega, eles seguem na luta de sempre. Agora mesmo, em alguma quadra do subúrbio, um compositor defende o samba que escreveu, diante de um júri e de uma torcida que não deixa a nota cair.

Ele talvez nunca saia no caderno de cultura da Folha de S.Paulo nem entre em uma antologia musical brasileira. Mas daqui a algum tempo uma cidade ou um país inteiro vai cantar o verso dele sem saber que é dele.

E cantar (e falar) junto, aqui, sempre foi o nosso jeito de não deixar morrer.