Aquela solidariedade de botequim
Um bar não morre de incêndio. Morre de esquecimento. Por isso me alegra a notícia. Entre 31 de julho e 2 de agosto, mais de vinte bares do Rio vão separar o que ganharem com um prato ou um drinque e mandar para o Café Lamas. É pouco e é muito. É a boemia carioca passando o chapéu para socorrer uma matriarca dos balcões.
Porque o Lamas é isso: uma espécie de mãe teimosa da noite carioca. Abriu as portas em 1874, quando o Brasil ainda era Império e Dom Pedro II reinava sobre um país de escravos e sobrados. Um português de bigode farto e barriga generosa botou umas mesas na esquina do Largo do Machado e, sem querer, fundou um pedaço da cidade.
Cento e cinquenta anos depois, o fogo começou numa fritadeira. Subiu pela exaustão, comeu a cozinha, e o restaurante mais antigo do Brasil em atividade fechou as portas à espera do seguro, das obras, da paciência. Quem passa em frente hoje vê a porta cerrada e sente uma falta esquisita.
Vale lembrar quem já sentou naquelas mesas. Getúlio Vargas parava ali para um chá com torradas antes de subir até o Catete. Machado de Assis, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Vinicius, Niemeyer, Portinari, Juscelino, Rubem Braga…. Bebia-se chope escuro e discutia-se política e literatura na mesma golada, madrugada adentro, porque o Lamas funcionava 24 horas. Um bar que nunca dormia, numa cidade que fingia acordar cedo.
Não à toa entrou no cancioneiro.
A valsa "Rio Antigo", de Chico Anysio e Nonato Buzar, passeia pela cidade que já não existe e faz questão de pedir um bife no Lamas. Alcione cantou magistralmente. O Brasil decorou.
Mas o meu detalhe favorito é outro. E é de bola. Em setembro de 1895, um grupo de rapazes do Flamengo se reunia, como sempre, numa mesa do Lamas. Estavam incomodados. Os remadores do Botafogo andavam roubando a atenção das moças do bairro, e aquilo - convenhamos - aquilo era intolerável. A tradição conta que a solução foi das mais cariocas que existem: em vez de brigar, fundaram um clube.
Nascia ali, entre um chope e outro, a ideia do Grupo de Regatas do Flamengo. A ata só veio em novembro, numa casa da Praia do Flamengo, com data marcada no dia 15 para homenagear a República. Mas a fagulha riscou o fósforo numa mesa do Café Lamas.
Ou seja: o clube mais popular do país nasceu de um ataque de ciúme regado a cerveja. Se isso não é a coisa mais carioca que existe, não sei mais o que seria.
Depois vieram as obras do metrô. Nos anos 1970, o prédio original foi ao chão, e o Lamas se mudou para a Rua Marquês de Abrantes, onde resiste até hoje - mais velho, menos mágico, teimoso do mesmo jeito. Já não é o templo do Largo do Machado. Mas ainda serve a batata portuguesa fininha e o chope que atravessou a República.
Agora ele precisa de nós. Não de placa nem de estátua, dessas a cidade já tem demais. Precisa de gente sentada à mesa, pedindo mais uma.
Talvez seja essa a única forma decente de agradecer a um bar que aguentou tanta coisa: fazê-lo voltar à ativa. Pedir o chope escuro. Brindar aos rapazes de 1895, ciumentos e geniais. E deixar que a noite, mais uma vez, não tenha hora para acabar.