A mulher que pôs o mundo para dançar
Com voz potente e guitarra em punho, Sister Rosetta Tharpe faz a cabeça de Elvis, Little Richards e Chuck Berry
Nesta segunda-feira (13) celebra-se o Dia Mundial do Rock. A data marca o aniversário do Live Aid de 1985, o festival beneficente que reuniu grandes astros do gênero numa campanha global que visava arrecadar fundos para combater a fome na Etiópia. Curiosamente, esse estilo que promoveu uma revolução comportamental no século passado foi inventado por uma mulher negra que a indústria musical nunca reconheceu adequadamente. Sister Rosetta Tharpe (1915-1973) tocava guitarra elétrica, cantava com potência e criava a fórmula sonora do rock and roll quando Elvis Presley ainda era uma criança no Mississippi. Sua história, invisível nas narrativas oficiais do gênero, precisa estar no centro desta conversa. E agora, finalmente, ganha visibilidade através de projetos que buscam reparar décadas de apagamento.
Rosetta Nubin nasceu em 20 de março de 1915, em Cotton Plant, Arkansas (EUA), em uma família pentecostal profundamente ligada à música evangélica. A Igreja de Deus em Cristo era seu palco natural, e a guitarra, sua linguagem desde cedo. Aos 19 anos, casou-se com Thomas Thorpe, um pregador da mesma congregação, e adotou parte de seu sobrenome dele como nome artístico — decisão que marcaria sua carreira. Em 1938, assinou contrato com a gravadora Decca e lançou suas primeiras gravações, incluindo "Rock Me", composição de Thomas A. Dorsey. Naquele momento, ninguém chamava aquilo de rock and roll. Era gospel, era blues, era soul. E era amplificada. Era, de fato, o nascimento do rock and roll.
Sister Rosetta se destacava em meio aos artistas de sua gerção graças à ousadia técnica e sonora: foi uma das primeiras mulheres a dominar a guitarra elétrica em estúdio, usando distorção e técnicas que soariam familiares a qualquer roqueiro décadas mais tarde.
E mais: suas apresentações ao vivo eram espetáculos de energia bruta: Rosetta tocava com precisão, cantava com potência que atravessava as paredes, e não se conformava com os limites que a indústria musical — e a sociedade — tentava impor a uma mulher negra nos anos 1930 e 1940. Seus discos vendiam bem. Suas apresentações lotavam casas de shows.
Em 1945, seu single "Strange Things Happening Everyday" se tornou o primeiro gospel a fazer crossover nas paradas Billboard, provando que sua música transcendia as barreiras de gênero e público. Para quem nunca ouviu, recomendo: a faixa nos convida ao movimento e deveria estar em qualquer antologia de clássicos do rock and roll. Raramente está. Entre seus sucessos, além das canções já citadas, estão "Up Above My Hair I Hear Music in The Air", "Shout Sister Shout", "This Train" e "All Over This World".
A influência de Sister Rosetta sobre os gigantes do rock é documentada. Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis e Chuck Berry cresceram ouvindo suas gravações. Keith Richards, décadas depois, reconheceria sua importância com a clareza que a indústria nunca teve. Mas enquanto esses nomes se tornaram lendas, Sister Rosetta permaneceu à margem das narrativas oficiais, frequentemente reduzida a uma nota de rodapé em livros de história musical. Parte dessa invisibilidade tem raízes óbvias na discriminação racial e de gênero que marcou a indústria fonográfica estadunidense. Outra parte vem da própria categorização de sua música: como classificar alguém que era gospel, blues, jazz e rock simultaneamente num tempo em eue essas categorias eram colocadas em prateleiras diferentes?
Sua carreira não foi linear. Nos anos 1950, quando o rock explodia comercialmente sob nomes brancos e masculinos, Sister Rosetta enfrentou dificuldades para se reinventar. Gravou menos, apresentou-se em circuitos menores, e sua saúde começou a declinar. Faleceu em 9 de outubro de 1973, em Filadélfia, aos 58 anos, sem ver o reconhecimento que merecia.
Apenas nas últimas duas décadas, com a reavaliação crítica da história do rock e o crescimento dos estudos sobre mulheres negras na música, seu legado começou a ser resgatado. O livro "Shout, Sister, Shout!: The Untold Story of Rock-and-Roll Trailblazer Sister Rosetta Tharpe", de Gayle F. Wald (2007), tornou-se a obra de referência sobre sua vida, trazendo documentação rigorosa de sua importância histórica. Documentários, vídeos em plataformas digitais e a crescente presença de sua música em streaming trouxeram seu nome de volta à conversa.
Agora, um novo capítulo se abre. Em 2025, foi anunciado um ambicioso projeto de cinema sobre Sister Rosetta Tharpe, com produção de Mick Jagger e direção de Aunjanue Ellis-Taylor. O projeto inclui um biopic de longa-metragem e um documentário complementar, com direitos exclusivos sobre o livro de Gayle Wald. Trata-se de um reconhecimento tardio, mas significativo: a indústria que a ignorou por décadas agora investe em contar sua história em escala global.
Que o Dia Mundial do Rock seja mais oportunidade para reverenciar o pioneirismo dessa mulher, celebrado hoje em homenagem ao Live Aid de 1985, é uma oportunidade para corrigir essa omissão. Sua música está disponível em plataformas de streaming, algunes de seus vídeos circulam em redes sociais, e cada vez mais jovens descobrem que antes de tudo que conhecem como rock, havia Sister Rosetta Tharpe, tocando, cantando e abrindo caminhos para o maior fenômeno musical do século 20.