SÓ CARIOQUICES: Alô, Houston! Ninguém segura os meninos do Rio!

Por Fred Soares (@fredaosoares)

Vini Jr. marcou o gol de empate do Brasil

Havia um momento em Houston, em que o silêncio do lado verde-amarelo das arquibancadas começou a pesar. O Japão tinha encontrado o seu método: compacto, disciplinado, onze homens fundidos numa muralha que tirava o espaço, tirava o ritmo, tirava quase tudo. A torcida brasileira foi ficando quieta. A japonesa, cada vez mais estridente.

Foi então que Vinícius Júnior se recusou a aceitar os termos daquela negociação. O menino do Porto da Rosa, em São Gonçalo, não tem o hábito de se submeter a qualquer coisa que cheire a derrota. Não é um traço de caráter que se cultiva necessariamente na formação esportiva - é algo que vem de antes, que mora mais fundo. Vem da rua. Da escolinha do Mutuá onde um dia não havia chuteira, e alguém precisou arrumar uma emprestada porque o menino se destacava demais para ficar parado.

Quem cresce numa comunidade carente aprende antes do primeiro drible que nada chega sem luta, que a bola que aparece nos pés pode não voltar, que o espaço que se abre fecha num piscar.

Nesta Copa, quando o Brasil teve campo, Vinícius teve asas. Nas três partidas da fase de grupos, foi o melhor jogador em campo — veloz, imprevisível, incendiário. Contra o Japão, retiraram o espaço livre. Não conseguiram retirar o fogo.

Houve um momento que ficará na memória de quem viu. Com o placar empatado, Vinícius pegou a bola, deu uma caneta no marcador, entrou na área, tocou na saída do goleiro, mas a bola beijou a trave. Caprichosamente. Como se o destino tivesse decidido guardar aquele gol para outro dia. Era, sem sombra de dúvida, o lance mais bonito da Copa até aqui. Um pecado dos deuses do futebol. A bola não entrou, mas a jogada ficou.

O que ele mostrou não foi técnica. Foi algo mais antigo, mais difícil de ensinar. Foi a recusa de se entregar - a mesma recusa que ele carrega desde que chegou à Europa e descobriu que nem lá o deixariam jogar em paz. Vinícius Júnior tornou-se, nos últimos anos, o símbolo mais visível da batalha do futebol negro contra o racismo. Sofreu insultos em estádios da Espanha, foi chamado de macaco em plena La Liga, e em vez de baixar a cabeça, ergueu a voz. Não pediu licença. Exigiu respeito. E continuou fazendo gols.

Há nas veias desse menino um sangue que vem de África - e que aprendeu, por gerações, que a dignidade não se mendiga: se conquista palmo a palmo, dividida a dividida, grito a grito. Essa memória não some quando a conta bancária muda. Ela fica. E nesta segunda-feira, ela estava em campo.

Pertinho dele no gramado, Bruno Guimarães. Nasceu no bairro de São Cristóvão, o mesmo pedaço de Rio que deu ao mundo Ronaldo Fenômeno, filho de um taxista que não tinha dinheiro para a passagem de ônibus até o Flamengo e foi parar no São Cristóvão, o clube, por necessidade. E da necessidade fez história. E também não se entregou quando o Brasil mais precisou. Foi ele quem deu pulso ao meio-campo, quem recuperou, quem empurrou, quem lembrou ao time que se render não é uma opção disponível para quem vem de onde eles vieram.

Juntos, os dois fizeram algo que vai além do 2 a 1. Foram eles quem primeiro perceberam o que precisava ser feito fora do campo também. Em determinado momento, os dois se voltaram para a torcida brasileira, bateram no peito, agarraram a camisa, chamaram os seus de volta ao jogo. Não era celebração. Era convocação.

Religaram o campo à torcida. Devolveram a energia no momento em que ela estava escorregando. Armando Nogueira dizia que o futebol tem poesia quando existe humanidade em campo. Nesta tarde, havia. Muita.

Se Casemiro foi a resiliência e Martinelli, o herói; Vini e Bruno foram a centelha que reacendeu o fogo brasileiro, e demonstraram, pelas atitudes, que não esqueceram o chão onde aprenderam a andar.