Do encontro da ventania com a lentidão, ficam a alegria e a gratidão

Por por Fred Soares (@fredaosoares)

Terminou. Sem briga, sem portas batidas, sem aquela contabilidade mesquinha de quem deve o quê a quem. Foi um adeus de gente grande, desses raros, em que os dois conseguem pensar e chegar à conclusão de que tudo aquilo valeu cada minuto. Devia ser fácil, então. Não é. Ninguém me avisou que terminar bem dói de um jeito mais silencioso, e mais comprido.

A gente se amou sendo, no fundo, dois contrários. Eu sou desses que andam devagar, que arrastam o passo, que chegam sempre um pouco depois, mas chegam inteiros. Tenho a calma teimosa de quem já viu muita coisa e desconfia da pressa.

Ela é o vento. É a rajada que chega sacudindo tudo, a que levanta a poeira. A que causa uma tempestade, escurece o céu num átimo e, no instante seguinte, deixa o ar mais limpo do que estava. Um homem lento amando uma ventania. Já viu coisa mais improvável? E mesmo assim durou, e durou bonito, porque o vento precisava de um árvore para conter o sopro e a árvore precisava de alguém que a arrancasse do lugar.

Foram tempos de alegrias bobas, de sustos, de tempestades que pareciam o fim do mundo - e não eram. A gente nunca jurou eternidade. Só se entregou por inteiro enquanto durou - que é, no fundo, a única promessa honesta que duas pessoas podem fazer uma à outra. Sempre com respeito. Sempre com lealdade, palavra que anda em falta por aí.

E houve os carnavais. Meu Deus, os carnavais! Antes dela, fevereiro era só fevereiro: barulho, suor, muito trabalho… mais um na conta dos anos. Depois dela, foi como se alguém tivesse acendido uma luz que eu nem sabia que existia. A gente reinventou o carnaval um para o outro. Agora toda folia que vier vai trazer um pedaço dela escondido em algum canto - na música, na purpurina, na madrugada que só termina com o sol na cara. Não sei se para ela é assim. Prefiro acreditar que sim. Gosto de pensar que reinventamos o carnaval um do outro para o resto da vida.

Ela se encantava também por uma terra distante, lá no norte do mundo, de colinas verdes, névoa e gaita de fole. Um povo que a História maltratou sem dó, massacrado tantas vezes, e que mesmo assim jamais se deixou apagar. Isso porque aprendeu a transformar a dor em música, a ferida em dança, o luto em festa. As gaitas daquela gente choram e comemoram ao mesmo tempo, no mesmo sopro. Foi com ela que entendi essa lição: que se sobrevive ao que dói não pelo esquecimento, mas pela celebração. Talvez seja isso que eu esteja tentando fazer aqui, com estas linhas.

E aí vem a pergunta que não me larga: quando o amor foi honesto do começo ao fim, por que o desfecho tem que ser o desaparecimento? Porque acostumaram que fosse assim. A pessoa some. De uma hora para outra, alguém que sabia o tanto de açúcar que vai no seu café vira um nome que você evita pronunciar. A gente trata o fim de um amor como uma morte: enterra o corpo e finge que aquela vida toda nunca existiu.

Houve um velho mestre, pequenino, de fala torta, orelhas pontudas e sabedoria antiga, que, lá das estrelas, ensinava ser preciso soltar aquilo que se teme perder. Talvez tenha razão o mestre. Mas aprendo a lição pela metade, e de propósito: solto a posse, solto a cobrança, solto o amanhã que não vai existir. A lembrança, essa, fica comigo. Porque ninguém leva embora o que a gente viveu. A memória é uma casa que continua de pé mesmo depois que os móveis mudam de lugar. Basta eu fechar os olhos e volto lá. Revivo, em cores, quantas vezes eu quiser. Nenhum término assina essa ordem de despejo.

Preciso ser honesto, não sou fácil. Tenho defeitos que pesaram, que cobraram dela uma paciência que nem sempre era justo cobrar. Não tenho o direito de exigir compreensão total, porque eu mesmo não dei toda a que ela merecia. Mas de uma coisa tenho certeza: ela fez o melhor que pôde. E eu fiz o meu melhor também. A gente foi até onde a corda esticava, com lealdade, com honestidade, do jeito que as coisas têm que ser. No fim, fica isso: não o quanto a gente errou, mas o quanto a gente tentou - e acertou.

Porque amar alguém não é só dividir um presente. É construir um passado que vai com você para sempre. E o passado, esse, ninguém termina.

Quem sabe um dia a gente aprenda que não é obrigatório virar estranho. Que dá para se querer bem de longe, sem a pressa de esquecer, sem a urgência de apagar. Que dá para guardar o outro num canto que não cause dor e, sim, luz.

Até lá, sigo por aqui. Grato por ter amado e por ter sido amado. Levando comigo, inteiro, tudo aquilo que nenhum fim é capaz de alcançar.