Só Carioqioces: O mundo - de lá e o de cá - gira enquanto há gira
Cheguei atrasado e, mal pus os pés na gira - o ritual que mistura festa e religiosidade -, e já levei uma bronca. E não foi de qualquer um: foi de uma entidade. E entidade, é bom que se diga, não engole desculpa esfarrapada. Eu podia ter chegado mais cedo. Não cheguei. Fui vencido pela preguiça, essa velha conhecida que todo mundo enfrenta e quase ninguém derrota.
Foi no último dia 14 de junho, um dia depois da data em que os praticantes das religiões de matriz africana celebram a entidade que faz a ponte entre o Orum e o Aye - entre o plano espiritual e este nosso chão de cá: Exu. Nosso amigo e irmão que abre os caminhos, que carrega nossas demandas mundo afora e mundo acima. E se há algo que define a religiosidade afro-brasileira é justamente isto: a festa não é o enfeite da devoção. A festa é a devoção. Reza-se sambando, cantando, comendo, agradece-se rindo, cultua-se com alegria.
Para completar, tudo aconteceu em clima de Copa do Mundo, um dia depois da estreia do Brasil. Para quem, como eu, se derrete por Copa, a tarde ganhou um tempero a mais, como se dois tipos de fé estivessem em campo ao mesmo tempo.
E aqui está o que essa festa tem de raro. Pare para imaginar a cena: num mesmo espaço, nós, os teoricamente vivos, os de carne e osso, convivendo diretamente com entidades que habitam o outro plano. Cada um crê no que quiser, claro. Mas nós, que praticamos, temos a certeza de estar ali ao lado de representantes do mundo espiritual - que conversam com a gente como amigos, como irmãos, como pais. Inclusive para dar bronca em filho que chega tarde.
No meu caso, há um capítulo ainda mais especial. A Marcela, minha namorada, meu amor de duas décadas, descobriu há algum tempo, dentro da Umbanda, que é médium. Pois minutos depois de eu chegar, ela incorporou Dona Maria Padilha, entidade forte, potente, que representa a essência máxima da feminilidade.
Não tem como explicar direito o que é isso. Você se aproxima do corpo de quem ama, de quem divide a vida com você, e percebe pelos olhos que não é mais ela quem está ali. É preciso saudar com respeito, reconhecer que naquele corpo querido se manifesta uma entidade que zela por ela - e, por tabela, zela por mim e por todos nós que dividimos essa fé. É inusitado e é bonito, as duas coisas ao mesmo tempo.
A gente volta pra casa revigorado, com uma certeza fincada no peito: a distância que nos separa do mundo espiritual é curtinha. Numa festa dessas, a gente põe o pé lá, e eles de lá põem o pé aqui. Os dois mundos se encontram no meio do caminho, se cumprimentam, se abraçam. E sobra ainda uma ternura por este nosso planetinha, que nos faz sofrer tanto, mas que de vez em quando guarda momentos assim, dos que valem por uma vida inteira.
Não poderia terminar sem saudar quem nunca me larga: Seu Tranca Ruas e Seu Zé Pelintra, que caminham sempre ao meu lado. A vocês, a minha honra e a minha gratidão.
E quanto à bronca do começo? Mereci. Na próxima, eu chego cedo. Ou ao menos prometo tentar - porque preguiça, todo mundo sabe, é um espírito teimoso de se despachar.