Só Carioquices: Jorge, um amigo dos cariocas

Por SÓ CARIOQUICES

O Rio é de São Sebastião, mas o santo guerreiro mora no coração do povo carioca

Camarada, quando dá meia-noite do dia 23 de abril, o Rio fica sinistro. É foguetório rasgando o céu, batuque ecoando na alma, reza forte e gole virado sem cerimônia. Não tem essa de quem é quem, de onde veio ou no que acredita. Nesta semana, comemoramos o dia dele. E São Jorge não é santo de altar enfeitadinho, não - veste armadura, monta no cavalo e desce pra batalha junto com a gente.

Ele é a última esperança de quem tá no perrengue, o escudo dos injustiçados, o guerreiro dos que ralam. Se você acorda cedo, pega condução lotada, engole sapo de patrão e ainda faz milagre pra comida não faltar, então tu tá na linha de frente - e Jorge tá do teu lado.

O Rio inteiro sabe que é dia sagrado. O jogo do bicho bota fé no sorteio, promessa é paga no balcão, vela acesa ilumina pedido antigo. Fé não pede documento. Corre solta entre igreja, terreiro e esquina. E ninguém estranha, porque aqui a devoção é mistura, é vivida, é de corpo inteiro.

E aí, a cidade muda de roupa. O medo dá um passo atrás e a esperança veste armadura. No som do tambor, na chama da vela, no copo sujo do botequim, todo mundo celebra o santo que não abandona os seus. Onde tem fé, tem panela no fogo. Feijão borbulhando na laje, na calçada, no quintal improvisado. E o copo? Sempre cheio pra compartilhar. Porque dividir também é oração.

E Jorge não caminha sozinho. Tem sempre um parceiro de chapéu de lado e sapato branco: Zé Pelintra. O malandro e o santo se entendem. Jorge segura o impacto, Zé ensina o caminho. Um protege, o outro orienta. No mesmo altar, na mesma vela, no mesmo brinde. Se o Rio tem esse gingado, não nasceu à toa.

Jorge é de todos, mas tem cantos onde ele é mais presente ainda. Tá nas madrugadas difíceis, nas vidas que enfrentam o seu dragão todo dia sem abaixar a cabeça. Tá nos que apostam na sorte, nos que vivem de coragem e improviso. E reina absoluto nos botecos, onde a vida é resolvida na conversa, no riso, no trago. Porque Jorge não é santo de porta fechada. É santo de rua, de beco, de mesa de sinuca, de cadeira na calçada e copo americano suado.

É também santo de arquibancada e de avenida. As escolas de samba sabem bem disso, pois carregam sua imagem, sua força e sua proteção como quem leva um escudo invisível. Porque desfilar no carmaval também é batalha. E sabe por que ele é tão respeitado? Porque não fica olhando de longe. Jorge entra no campo. Empunha a lança, encara o dragão e segura a bronca junto com o povo.

Então erga o copo, acende tua vela, bate no peito e segue firme. Porque hoje o Rio é território dele.

E onde ele pisa, ninguém caminha sozinho. Salve Jorge!