Linhas de Fuga: Os dois combates por trás de 'Pecadores'

Por ALDO TAVARES

Samuel (Miles Caton) leva sua música ao Clube de Blues

No quarto, outono chegou ao som do blues de Buddy Guy, quem surge nas últimas cenas de "Pecadores", de Ryan Coogler. Gilles Deleuze (1925-1995) diria singularidade, no sentido de que sua arte emerge entre branco-e-negro, não o negro contra o branco.

Com pedaço de madeira e com duas cordas amarradas com grampos de cabelo da mãe, Buddy, aos 7 anos, fez sua primeira guitarra e, nas plantações de algodão de Louisiana, passava o tempo desenvolvendo suas "técnicas" musicais.

Em "Pecadores", emergem duas formas de luta: à noite, a Ku Klux Klan é vampiro, não usa arma de fogo; e, ao dia, é representada por homens armados. Sob a lua, luta-se mutuamente com músicas e, sob o sol, luta-se com armas. Esse contraste exibe que, à noite, a Klan só pode combater o afeto musical com afeto, pois, afinal, não se combate afeto com armas.

Observado isso, Samuel - nome hebraico que significa "ouvido por Deus" - expressa no início um breve canto enquanto trabalha na planície como catador de algodão. Samuel trabalha na planície "branca" e canta, mesmo canto que ressurge de forma mágica no Clube de Blues dos gêmeos Smoke e Stack.

No filme, o blues é o devir-canto negro da planície branca, sendo ele, o blues, potência intermediária a emergir entre os contrários, potência expressada pela singularidade artística de Samuel.

Contrário a Samuel, um homem gordo e branco, Hogwood. Da Klu Klux Klan, ele diz que "a Klan não existe mais", não havendo no longa de Coogler a imagem clássica e histórica da KKK, e sim a aparência vampírica, quer dizer, como alegoria, amplia-se o sentido literal da Klan. Hogwood "aparenta ser" quem é, mas a KKK, por não estar morta e por não estar viva, movimenta-se entre ausência-e-presença, sendo, pois, potência intermediária, a qual, por não matar o inimigo, deseja-o vivo para sugar sua vida [seu sangue] a fim de transformá-lo no que deseja, que é fazer com que a música negra - esse devir-canto negro da planície branca - incline-se à música da igreja, representada pelo pai de Samuel, um pastor, e à música e à dança branca irlandesa, representadas pelo chefe dos vampiros.

Embora apelidado de Pastorzinho, Samuel não toca violão e não canta na igreja, ele é o bluesmen a encantar onde foi o matadouro de Hogwood, agora um Clube de Blues, onde belíssimas imagens da música negra encarnam outras temporalidades, o que leva à ruína o próprio matadouro do branco.

Diz o vampiro-mestre a Samuel: "Eu quero suas músicas", em outros termos, a Klan afirma querer seus afetos. Hoje, Buddy Guy tem 86 anos.