Mora na filosofia: Papo com Käthe Schirmacher
À margem do rio Vístula, em Gdansk, norte da Polônia, tive a alegria intelectual de "entrevistar" uma das mais inteligentes feministas do mundo. À mesa do restaurante Hewelke, conversamos sobre sua luta política, marcada pelo feminismo maternal. Embora esteja com os seus longos 161 anos de idade, suas palavras permanecem jovialmente vivas. Moro na Filosofia entrevista palavras, não pessoas. Nossa entrevistada, Käthe Schirmacher, que defende a ideia de que ser mãe é a forma de trabalho mais digna. Cuidar dos filhos, da casa, enfim, cuidar da família, possui o sentido mais amplo de cuidar da vida. "O trabalho doméstico é trabalho social, é trabalho político, é trabalho econômico", e ela me perguntou: "existe trabalho mais digno do que acolher o lar da família?".
Käthe, antes de tudo, obrigado por este "encontro". Você conhece a realidade das mães mais pobres no Brasil?
Conheço. Em seu país, a grande maioria das mães cria os filhos sozinha em lugares onde não há creches, o que impõe ao filho ou à filha cuidar dos irmãos menores, enquanto a mãe passa o dia trabalhando.
A creche é solução?
Não. Ainda que o poder público colocasse creches, ele daria a terceiros a responsabilidade de cuidar da vida. Quem tem de cuidar do filho é a mãe com o pai.
Mas a mãe trabalha fora de casa.
Não por isso. Havendo condição financeira, essa mãe fica em casa para cuidar dos filhos, e quem deve assegurar tal condição é o Estado. O trabalho da maternidade, o mais digno de todos, tem de ser muito bem remunerado para que as mães pobres possam ficar em casa cuidando de seus filhos.
Então, você defende o feminismo maternal.
Isso mesmo. O feminismo da maternidade é o mais amplo, pois envolve a política pública habitacional, ou seja, o lar. A questão aqui, portanto, não é a mulher ter direito igual ao homem, porque ser mãe, que é gerar a vida, é direito superior ao direito masculino.
As feministas lutam pela maternidade?
Não, o que levou à jornada dupla de trabalho para as mães. Eu luto por isso desde o final do século 19, quando a pobreza feminina era agravada pelos riscos próprios da vida das mulheres. Uma coisa é o homem pobre e sozinho, e outra coisa é a mulher pobre, sozinha e grávida. Quero dizer com isso que, uma vez comparado o homem à mulher, o Welfare State é bem diferente.
Sua análise é interessante.
Defendo a natureza da mulher, que é a de ser mãe, não havendo trabalho mais produtivo do que esse, já que cria o valor dos valores, que é educar o filho, que é cuidar da vida do ser humano.
