Betty Boop, um fenômeno cultural

Aos 96 anos, livre a proteção de direitos autorais, a personagem criada em desenho animado na década de 1980 segue inspirando a indústria e instigando debates sobre a força da mulher

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Betty Boop foi criada em 1930

Aos 96 anos, livre a proteção de direitos autorais, a personagem criada em desenho animado na década de 1980 segue inspirando a indústria e instigando debates sobre a força da mulher

Em meio a uma avalanche de bijuterias, canecas, garrafas térmicas, bolsas e até um fofíssimo conjunto de meias, que brota num bazar digital como a Amazon, quando se pesquisa sobre a diva da animação Betty Boop, a oferta mais curiosa (pelo exotismo) é um livro de autoajuda.

Em sua narrativa, a empoderada personagem lançada em 9 de agosto de 1930 é tema de lições sobre como viver melhor. Chama-se "Guide to a Bold and Balanced Life: Fun, Fierce, Fabulous Advice Inspired by the Animated Icon" e foi editado pela Skyhorse Publishing. Em suas páginas, as autoras Kristi Ling Spencer e Susan Wilking Horan tomam emprestado dos desenhos e das HQs dessa ícone da força feminina critérios como autoconfiança, pensamento positivo, independência e gentileza.

Todos esses itens se aplicam ao combate ao sexismo desde que Betty foi inventada pelos animadores Max Fleischer e Grim Natwick, a serviço do Fleischer Studios, no curta "Dizzy Dishes", da série "Talkartoons". Esse ensaio de Kristie Susan ganhou mais visibilidade este ano, com o anuncio de que a heroína caiu em domínio público, depois de ultrapassar o limite (hoje estipulado em 95 anos) de proteção de copyright nos EUA. Quatro de seus curtas-metragens iniciais da década de 1930, são parte do lote de produções que se tornaram públicas.

O resultado dessa "quebra de proteção" de direitos é uma corrida avassaladora da indústria para explorar sua marca como possível. Estima-se até um filme de terror com Betty em versão malévola. Ele vai se chamar "Boop" e tem Devanny Pinn no papel título.

Em suas primeiras aparições, Betty ganhou a voz de Margie Hines. Kate Wright, Bonnie Poe, Ann Rothschild também lhe emprestaram o gogó, sendo que sua interprete mais conhecida foi Mae Questel, que a encarnou em vários curtas, de 1931 até 1938, e fez a voz da personagem no filme "Uma Cilada Para Roger Rabbit", em 1988.

Em sua gênese, Betty tinha características de poodle humanoide, incluindo orelhas compridas. Com o tempo, elas evoluíram para os clássicos brincos de argola que fazem parte de seu visual definitivo. Ao longo de poucos anos, a sapequinha passou por um processo de transformação estética e narrativa até se tornar a figura que o público reconhece hoje: uma jovem de aparência delicada, cabeça grande, olhos expressivos e voz infantilizada, mas com um comportamento marcadamente adulto e sedutor. Essa combinação de inocência e sensualidade tornou-a um fenômeno cultural, atrelada ao jazz. Betty cantava em vários episódios, consolidando-se como estrela musical.

Na segunda metade da década de 1930, om a implementação mais rígida do chamado Código Hays — conjunto de regras morais que passou a regular o conteúdo do cinema americano —, os produtores foram pressionados a suavizar o comportamento e a aparência de Betty, de forma a arrefecer a representação de sua libido. A personagem perdeu parte da sensualidade e passou a ser retratada em papéis mais domesticados, frequentemente como dona de casa ou participante de histórias mais convencionais. Em 1939, seus autores conseguiram libertá-la desse julgo minion e devolveram a ela seu molejo e sua audácia.

Do que de mais precioso se compra a mas dos Fleischer, destaca-se o livro "Life and Times of Betty Boop: The 100-Year History of an Animated Icon", de Peter Benjaminson, editado pela Applause Books. Saiu ainda pela Titan Comics a antologia de tiras "The Definitive Betty Boop: The Classic Comic Strip Collection".