Morre, aos 79, Nelson Rodrigues Filho

Filho do maior dramaturgo brasileiro foi militante, preso político, escritor, roteirista, produtor cultural e fundador de um dos blocos mais tradicionais do carnaval de rua

Por Affonso Nunes

Nelson Rodrigues, o homem que fez da alegria uma ferramenta de indignação

Filho do maior dramaturgo brasileiro foi militante, preso político, escritor, roteirista, produtor cultural e fundador de um dos blocos mais tradicionais do carnaval de rua

Dois gestos, aparentemente contraditórios, resumiam Nelsinho Rodrigues: o punho cerrado do militante que enfrentou a ditadura nas sombras da clandestinidade, e a gargalhada aberta do homem que fundou um bloco de carnaval e ajudou a devolver as ruas do Rio à alegria. Mas eram a mesma coisa, vista de ângulos diferentes. Nelsinho entendeu, antes de muitos, que a resistência não precisa ser pesada. Que a festa pode ser um ato político. Foi assim que ele viveu. E foi assim que, na madrugada desta quarta-feira (25), ele se foi — aos 79 anos, após meses de luta contra as sequelas de dois acidentes vasculares cerebrais, o primeiro em 2015 e o segundo em janeiro de 2024. Com ele parte uma das figuras mais singulares da memória cultural e política brasileira do século 20.

Nascer com o sobrenome Rodrigues, naquele Rio de Janeiro das décadas de 1950 e 1960, era carregar um peso. Nelson Rodrigues, seu pai, já era então uma presença enorme na cultura brasileira: o dramaturgo que rasgava a moralidade burguesa com ironia perturbadora e cirúrgica. Suas peças eram ao mesmo tempo admiradas e temidas. A sombra paterna não definia Nelsinho que encontrou na política o lugar exato onde o pai jamais esperaria encontrá-lo.

Durante a ditadura militar, enquanto Nelson Rodrigues mantinha relações ambíguas com o regime — chegando, em determinados momentos, a minimizar denúncias de tortura —, o filho seguiu em direção radicalmente oposta. Ingressou no MR-8, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, organização de esquerda que resistia ao poder militar com as armas possíveis dentro da clandestinidade.

A ruptura ideológica entre os dois era inecitável. Um escrevia em jornal conservador; o outro atuava nas sombras, movido pela convicção de que aquele país precisava mudar. Em 1972, Nelsinho foi preso. O que veio a seguir ele descreveu, em diversas entrevistas ao longo da vida, com uma clareza que o tempo não conseguiu apagar: três dias de tortura. Sete anos de detenção.

O sofrimento de Nelsinho dentro das prisões da ditadura produziu naquele que havia escrito "O Beijo no Asfalto" e "Toda Nudez Será Castigada" uma transformação que nenhuma dramaturgia poderia trazer com mais força. Ao visitar o filho na cadeia e ouvir que ele havia sido "barbaramente torturado", Nelson descreveu o momento como um "choque tremendo". O homem que havia flertado com o discurso do regime passou a usar sua plataforma pública — suas colunas, seus contatos, sua influência — para defender a anistia e lutar pela libertação do próprio filho. Chegou a escrever cartas ao presidente João Figueiredo. A crueldade do regime reconciliou paiu e filho que se amavam e discordavam em quase tudo.

Nelsinho foi libertado em outubro de 1979. Nelson Rodrigues morreria em dezembro de 1980. Apesar das divergências nunca inteiramente resolvidas, os dois mantiveram até o fim um vínculo de respeito mútuo - um retrato do que mais precisamos no Brasil de hoje: a capacidade de os opostos sentarem-se à mesma mesa, unidos por algo mais forte do que qualquer certeza política.

Reprodução - Nelsinho durante um desfile do Barbas

Libertado, Nelsinho não recolheu o punho. Apenas encontrou outras formas de usá-lo. Mergulhou no tecido cultural do Rio com a mesma intensidade que havia levado para a militância. Escolheu a alegria como postura política. Escolheu o teatro, a rua, o bloco. Escolheu fazer da festa um manifesto.

Foi a barba comprida que não abria mão que acabou dando nome ao seu projeto mais duradouro. O Barbas, bloco carnavalesco fundado em Botafogo e que nasceu como extensão natural de um bar, de encontros, de conversas da boemia intelectual dos anos 1980. Quando o carnaval de rua havia perdido espaço para os desfiles televisados e a folia popular enfrentava seu momento de maior refluxo, o Barbas ajudou a reacender algo que a cidade parecia ter esquecido: que a melhor festa é aquela que acontece na calçada, entre desconhecidos que se tornam cúmplices por uma hora. O movimento que se seguiu transformaria o carnaval carioca em um dos maiores do planeta.

Além do carnaval, Nelsinho atuou como diretor de teatro, produtor cultural e roteirista, tornando-se também um dos mais dedicados guardiões da obra do pai. Nas décadas de 1980 e 1990, sua presença na cena cultural carioca era constante. Amigos o descreviam como figura agregadora, generosa, incapaz de passar por uma roda sem animá-la.

O Fluminense Football Club, clube pelo qual Nelsinho nutria a mesma paixão que o pai, divulgou nota de pesar: "Apaixonado pelo Fluminense, assim como o pai, Nelsinho era diretor teatral, produtor cultural, roteirista e foi figura importante pro carnaval de rua carioca. O Fluminense Football Club lamenta profundamente a partida de Nelsinho Rodrigues e deseja muita força à família, aos amigos e fãs." Poucas linhas para uma vida enorme.

Divulgação - Nelsinho junto ao busto do pai, na sede do Fluminense

Nelsinho Rodrigues viveu como se tivesse que provar, a cada esquina, que era mais do que o filho de alguém. E provou. Entre o punho cerrado e a gargalhada aberta, Nelsinho encontrou seu lugar. E o Rio nunca mais será exatamente o mesmo sem ele.