Capoeira cruza fronteiras

Mestre Bujão leva ao México manifestação afro-brasileira que conquistou reconhecimento mundial da Unesco e se faz presente em 150 países

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Mestre Bujão, um embaixador da arte da capoeira

Mestre Bujão leva ao México manifestação afro-brasileira que conquistou reconhecimento mundial da Unesco e se faz presente em 150 países

Nascida nos porões da escravidão colonial brasileira como forma de resistência e autodefesa disfarçada de dança, a capoeira percorre hoje um caminho radicalmente oposto ao da marginalização que enfrentou por séculos. Mestre Bujão, fundador do Gingas Capoeira, está no México numa missão de divulgação dessa manifestação afro-brasileira. A viagem adiciona um novo capítulo a uma história que começou nos engenhos e senzalas do século XVI, quando africanos escravizados criaram um sistema de luta camuflado por movimentos ritmados e acompanhamento musical.

Os primeiros registros da capoeira no Brasil datam de 1548, quando a prática já era documentada entre populações escravizadas que desenvolveram essa forma única de combate corporal. Combinando elementos de dança, acrobacia, música e espiritualidade, a capoeira permitia que os escravizados treinassem técnicas de defesa sem despertar a suspeita dos senhores de engenho. O berimbau, a ginga característica e os cânticos em formato de chamada e resposta compunham um código que ia muito além do aspecto marcial, configurando-se como expressão de identidade, memória ancestral e organização comunitária. Durante todo o período colonial e imperial, a capoeira foi praticada clandestinamente, vista pelas autoridades como ameaça à ordem estabelecida.

Com a abolição da escravatura em 1888, a capoeira não conquistou liberdade imediata. Pelo contrário: em 1890, o Código Penal da República recém-proclamada criminalizou explicitamente sua prática, classificando-a como contravenção passível de prisão. Capoeiristas eram perseguidos, presos e deportados, especialmente no Rio de Janeiro, então capital federal. Apenas em 1937, durante o governo de Getúlio Vargas, a capoeira começou a ser descriminalizada, processo que se consolidou definitivamente em 1940. A partir daí, mestres como Bimba e Pastinha foram fundamentais para sistematizar estilos (Regional e Angola, respectivamente) e elevar a capoeira à condição de prática culturalmente valorizada. O reconhecimento como esporte nacional pelo Conselho Nacional de Desportos em 1972 e, sobretudo, o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade concedido pela UNESCO em 2014 consolidaram a capoeira como expressão cultural brasileira de relevância global.

É justamente essa trajetória de transformação que Mestre Bujão leva na bagagem. A agenda no México inclui oficinas sobre gestualidade, musicalidade, ritmo e ritual da capoeira, além de palestras em escolas e no Ministério da Educação na Cidade do México. O mestre também ministrará workshops focados no aspecto marcial da capoeira para praticantes de outras modalidades de luta, como MMA e Muay Thai, estabelecendo pontes entre diferentes sistemas corporais de combate. Segundo o próprio Mestre Bujão, a missão possui dimensão estratégica que ultrapassa a simples demonstração técnica.

"O Gingas Capoeira já vem desenvolvendo atividades no México há alguns anos, e agora a gente tem a oportunidade de expandir ainda mais essa atuação. Eu vou ministrar oficinas sobre a gestualidade, a musicalidade, o ritmo e o ritual da capoeira, além de palestras em escolas e no Ministério da Educação na Cidade do México. Também fui convidado a oferecer workshops sobre a parte marcial da capoeira para pessoas de outras modalidades, como MMA e Muay Thai. E tudo isso está acontecendo graças ao edital de mobilidade da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, que está possibilitando essa expansão. A gente vai levar nossa visão da capoeira como uma ponte cultural inclusiva, destacando também a questão da acessibilidade", detalhou o mestre.

Durante a permanência no México, Mestre Bujão conta com o suporte da equipe local do Gingas Capoeira, formada por José Antonio Lara Salas (Zé), Jorge Ulises Vazquez Betancourt (Franguinho), Byron Salvador Duarte Macedo e seus respectivos grupos. Essa presença coletiva reforça o princípio de comunidade e pertencimento que estrutura o trabalho do Instituto Gingas, que já desenvolve atividades em diversas cidades fluminenses como Niterói, Saquarema, Cachoeiras de Macacu e Duque de Caxias. A programação prevê rodas de capoeira, participação em eventos culturais e ações em academias, promovendo intercâmbio entre diferentes práticas corporais e fortalecendo os laços entre capoeiristas brasileiros e mexicanos.

O que começou como estratégia de sobrevivência nos porões da escravidão transformou-se em patrimônio cultural reconhecido mundialmente, praticado hoje em mais de 150 países. Ao cruzar fronteiras, Mestre Bujão não apenas ensina golpes e toques de berimbau, mas carrega consigo séculos de resistência, criatividade e afirmação cultural afro-brasileira.