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Rapper faz várias referências à sua trajetória e pioneirismo

Gabriel O Pensador reflete sobre o passar dos anos | Foto: Divulgação

Não é só "Cachimbo da Paz 2" que testemunha no disco a passagem do tempo. Gabriel se refere em muitos momentos à sua trajetória e, em paralelo, à trajetória do rap brasileiro, em trechos como: "Nada disso dava likes e eu já tava lá no mic e já sabia o que queria" e "30 Anos Não São 30 Dias", ambas de "Profecia"; "Rima pesada desde adolescente/ Morte ao racismo, matei o presidente", em "Burn Babylon", lembrando seu primeiro sucesso, "Tô Feliz (Matei o presidente)"; "Nem a Nasa em suas viagens tem a milhagem do meu mike", em "Boca Seca".

"São 30 anos de carreira, a gente estava comemorando os 25 anos do [disco] 'Quebra-Cabeça'... Isso me fez olhar para trás, celebrando esse tempo, afirmando a importância dessa contribuição", explica Gabriel. "No fundo, inconscientemente eu queria inspirar a molecada a lembrar o motivo de eu fazer rap, que deveria ser o motivo de todo rapper, trapper, funkeiro: ter algo a dizer. Sempre teve ostentação, letra de sacanagem. Mas tinha propósito, uma essência de luta por liberdade de expressão, por dar voz ao jovem e aos que não tinham representatividade. Nas músicas estou falando que sou pioneiro e tal, mas não para tirar onda, e sim inspirar".

A reflexão carrega um papo para as novas gerações, sobretudo para o cenário do trap, o subgênero mais popular. Território de invenção em termos de beats e produção, suas letras - salvo exceções e a despeito da admirável habilidade verbal dos artistas - são em geral autolouvações hedonistas recheadas de armas, roupas e carros caros, com a objetificação extrema da mulher.

"Não parei para conhecer estudar o cenário, mas olhando por alto, vejo que a galera tem capacidade de buscar mais temas", observa Gabriel. "Até tá rolando. Mas os artistas podem caprichar mais nessa busca".

Gabriel não se furta, porém, a flertar com a musicalidade do trap em "Antídoto pra Todo Tipo de Veneno", em momentos como "Cachimbo da Paz 2" e "Boca Seca". As bases do disco -assinadas por produtores como Papatinho, DJ Caique, André Gomes, Sam The Kid e Dree Beatmaker - também atestam o tempo, indo do boom bap tradicional a sonoridades mais modernas. Além disso, há elementos de reggae ("Liberdade"), ragga ("Burn Babylon") e mesmo bossa nova ("Do Nada").

As participações reafirmam essa abertura. Além dos já citados Xamã e Lulu Santos, estão lá rappers de diferentes gerações, como Sant e Black Alien. Há ainda Helio Bentes, cantor de reggae, antigo parceiro de Gabriel; Armandinho, também do reggae; e o havaiano Makua Rothman, surfista de ondas grandes, além de cantor e compositor.

Os temas também refletem ora o peso, ora a leveza dos anos. A depressão aparece em "Ultimamente" e "Topo do Mundo / Fundo do Poço". "Andei sofrendo para caralho, na pandemia fiquei muito triste com a perda do meu pai. Fiz um vídeo que viralizou, falando de coisas que eu estava sentindo, dor no peito, angústia... Passei por fases difíceis. Esses versos têm a ver com amadurecimento".

Já "Firme e Forte", crônica saborosa que conta um episódio real de um show onde conheceu um fã cadeirante, soa como resposta igualmente madura de quem está há 30 anos - não 30 dias - no rap: "Fica difícil explicar, mas é tão fácil entender / Que a letra que fala dele fala de mim e de você/ Das alegrias e dores que não são tão diferentes / Daquelas que os cantadores cantavam lá no sertão".