'No teatro consegui uma autoralidade não conseguida no cinema'

MOACYR GÓES / TEATRÓLOGO E CINEASTA

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Moacyr Góes brilhou nos palcos nos anos 1990 com 'A Escola de Bufões' e volta agora, como diretor e dramaturgo, com 'Moria'

Na entrevista a seguir, Moacyr Góes dimensiona a forma como se representar os verbos "crer" e "resistir".

Qual é a ideia de "refúgio" que está no espetáculo e de que forma esse espaço de sobrevivência para pessoas que abandonam o lar pode ser sintetizado no palco? Que cenografia é possível para essa tensão do êxodo forçado?

Moacyr Góes: O grande drama para os refugiados nos campos é que eles se constituem como lugar nenhum. Um espaço fora do tempo que produz angústia e desesperança. A partir dessa realidade monstruosa, a luta por criar sentido na existência e manutenção da fé é uma tarefa de vida ou morte.

De que maneira o seu teatro reflete a questão de "pertencimento"? Peças como "A Dança de Feliciano" - texto de sua autoria, montado em 2011 - carregam um traço de afirmação de passado como identidade. Como esse traço se reflete em "Moria"?

Há uma realidade do humano em nós que é sermos seres em busca de sentido, seres gregários. Isso se estabelece no tempo e no espaço. Nesse sentido, tanto o passado, como o presente, nos constitui. "Moria" reflete sobre o drama e sobre a violência - principalmente contra as mulheres - do confinamento num lugar fora da realidade do mundo. Isso provoca o desespero, ao ponto de crianças tentarem o suicídio. Milhões de pessoas no mundo hoje estão nessa situação de desterro, em que mulheres sofrem violência sexual, perseguições por suas crenças etc.

Como foi o processo de investigação com suas três atrizes - Claudia Lira, Tarciana Giesen e Carol Alves - em cena?

Criar um espetáculo teatral é sempre uma investigação sobre a própria linguagem do teatro. Em "Moria" todo o processo foi a investigação de como a palavra em cena estrutura e dimensiona os personagens e a trama. Há os corpos, os sentimentos, as singularidades, mas tudo se dimensiona e se estabelece pela palavra. É quando a palavra se torna ação e afirma o ser.

A que tradição teatral "Moria" se reporta? Com que teatro você conversa em sua obra?

"Moria" é um teatro de ideias, sem que isso signifique a negação da emoção e beleza. É um teatro de ator, de afirmação da teatralidade. Nesse sentido, é um teatro experimental, na melhor acepção da palavra.

Como você avalia o impacto de sua experiência no cinema sobre a construção da sua carreira e como seu rol de filmes afeta sua relação com os palcos?

Não vejo nenhuma relação. O que vejo é que no teatro consegui uma autoralidade não conseguida no cinema.