Organizada cronologicamente, a exposição deixa claro como a carreira do artista foi uma evolução no sentido de se desvencilhar do objeto artístico e do conceito da arte como algo a ser visto passivamente num museu. Havia uma constante convocação das pessoas a interagirem com suas obras, que só se completavam com a ação do público.
Ilustram esta ideia os parangolés, capas coloridas para vestir que Oiticica passou a desenvolver depois de ter subido o morro da Mangueira em 1964 e se encantado com a vitalidade dos adereços e fantasias da escola de samba.
Há vários deles expostos, incluindo os de conotação política mais explícita, que iam de encontro à ditadura militar, com dizeres como "estou possuído", "estamos famintos" e "da adversidade vivemos", além de um com o rosto de Che Guevara adornado com lantejoulas. Alguns podem ser vestidos pelos visitantes.
"A dança que o trabalho dele adquire vem do samba. Com o parangolé e o movimento do corpo, você se torna a obra. Ela só existe por conta de você, neste contato com o corpo", afirma Dos Anjos, acrescentando que dançar envolto num parangolé era para Oiticica uma forma de o corpo se livrar das amarras impostas pela ditadura. Mesmo com o clima duro no país, as criações do artista não deixaram de ser lúdicas.
Um dos destaques da exposição é "Grande Núcleo", de 1960, um conjunto de retângulos e quadrados de madeira pintados em diferentes tons de amarelo que pende do teto.
A obra de grandes dimensões tem uma galeria dedicada só para ela, nesta que é uma das poucas vezes em que pode ser vista por inteiro, de acordo com Cesar Oiticica Filho, sobrinho do artista e um dos responsáveis pelo legado do tio. Em geral, os núcleos são exibidos em módulos menores.
Há também uma série de penetráveis expostos. São grandes instalações em formato de cabine onde as pessoas podem entrar. Elas mostram como o artista queria envolver o corpo dos espectadores.
No jardim do CCBB está montado um "Magic Square", uma obra em forma de labirinto com paredes coloridas que mudam de tonalidade conforme a incidência da luz do sol, semelhante ao que está em exposição permanente no museu Inhotim, em Minas Gerais.
A maior parte das obras da mostra vêm do Projeto Hélio Oiticica, um centro cultural no Rio de Janeiro instalado na casa onde o artista morou, no Jardim Botânico, gerido pelo sobrinho - algumas poucas peças são oriundas de coleções particulares. Ainda não há previsão de que a exposição vá para outras cidades.
Oiticica Filho, o sobrinho, destaca uma característica fundamental da obra de seu tio. Ele observa que, à medida que a obra de Oiticica exigiu mais a participação do espectador, ela se tornou mais política. "É política na essência, porque ela está dizendo que a partir da ação você faz uma revolução."
SERVIÇO
HÉLIO OITICICA - DELIRIUM AMBULATORIUM
CCBB Brasília (SCES Trecho 02, Lote 22) | Até 15/10, de Terça a domingo (9h às 21h) | Entrada franca