O sofrimento da população de Volta Redonda com a poluição atmosférica causada pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) recrudesce a cada dia e pode ser vista praticamente de qualquer ponto da cidade, como ocorreu logo na manhã desta quinta-feira, dia 11. Um rolo de fumaça em tom laranja foi visto da Vila Santa Cecília, um dos principais centros empresariais do município. A comerciante Carolina Ferreira, de 22 anos, é uma das "vítimas" do chamado pó preto: "A gente tem que varrer a loja de manhã, a tarde e a noite. Sem contar que, como eu e minha chefe somos alérgicas, nós ficamos espirrando o dia inteiro praticamente e com o nariz irritado", relatou Carolina, que trabalha em uma loja que vende semijoias.
- A poluição faz com que nossas peças ficam constantemente sujas por esse pó preto, inclusive as joias banhadas a ouro podem acabar sendo danificadas por essa sujeira e precisam ser constantemente higienizadas. Em relação as peças de prata, o pó acaba acelerando sua oxidação, o que também danifica a peça - explicou Carolina.
Já Letícia Lima, de 21 anos, que mora no Aterrado, outro bairro afetado pela poluição, permanece com a residência fechada para tentar minimizar a sujeira que vem da usina. "Por ser um pó extremamente fino é até mais difícil de limpar. Normalmente preciso sempre passar um pano úmido. Sem contar a alergia que a minha mãe sofre diariamente, ficando praticamente o dia inteiro espirrando e tomando remédio", reclamou Letícia.
Saúde afetada
O pneumologista Gilmar Zonzin explicou como o "pó preto" afeta a saúde das pessoas que o inalam diariamente: "O nosso sistema respiratório possui uma forma de retirar o excesso de poluentes de dentro dele, porém quando essa carga de poluição excede o limite que o organismo consegue retirar, acaba gerando um fenômeno chamado antracose, que é o depósito de material enegrecido nos pulmões, semelhante a uma pessoa que fuma", explicou o especialista.
O médico afirmou ainda que o principal problema da poluição que vem da CSN é causar a chamada doença pulmonar obstrutiva crônica ocupacional (DPOC). "Essa é uma condição que depende da susceptibilidade e do pulmão de cada cidadão e caso venha a ocorrer reduz a capacidade de funcionamento do pulmão ao longo dos anos. Algo que não aconteceria se ela não estivesse sido exposta a tanta poluição durante esses anos, bastante semelhante a situação de pessoas fumantes. Inclusive diversas cidades já discutem essa poluição ambiental como principal causador dessa doença", disse Gilmar Zonzin.
Ele explicou também que pessoas com histórico alergênico normalmente são alérgicas a poeiras e mofos domésticos e ácaros. "Então esse pó inorgânico da CSN não é capaz de gerar uma reação alérgica por si só. O que ele pode causar é o agravamento de um caso de rinite, bronquite ou asma de uma pessoa que já possua essa condição anteriormente", concluiu.
Licença ambiental
O vereador Rodrigo Furtado comemorou o fato de a CSN ter conseguido a licença ambiental para instalar filtros na Usina Presidente Vargas. A informação sobre a concessão da licença foi dada pelo governador interino do Estado do Rio e também secretário estadual de Meio Ambiente, Tiago Pampolha, nesta terça-feira, dia 09. Em janeiro deste ano, a siderúrgica, segundo informações extraoficiais, adquiriu novos filtros para reduzir o pó no setor de sinterização e a previsão de instalação, a contar da data da compra, é de seis meses. Ou seja: até o mês de julho.
A instalação faz parte do novo TAC (Termo de Ajustamento e Conduta) assinado entre a empresa e o Inea (Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro). "A luta é árdua mas não podemos esmorecer. Estamos fazendo a nossa parte para que nossa cidade deixe de ser piada nacional e tenhamos um ar respirável para nós, nossos filhos e para as novas gerações", disse o vereador, acrescentando que desde que assumiu o primeiro mandato, em 2017, foi cobrado com relação ao combate à poluição ambiental em Volta Redonda.
- Em julho de 2018, presidi uma Comissão Especial sobre a poluição e o acúmulo indevido de escória no pátio do bairro Volta Grande e no entorno dos bairros: Caieiras, Cailândia, Brasilândia, São Luiz. Na época, estiveram presentes diversas autoridades, deputados, representantes da empresa e os MPF (Ministério Público Federal) e MPE (Ministério Público Estadual) que moveram uma ação civil pública contra a CSN e a Harsco Metals - lembrou Furtado.
Assinatura do TAC
O tão sonhado TAC foi assinado entre a CSN e o Inea em 2018, prevendo investimentos da ordem de R$ 303 milhões nos seis anos seguintes. O prazo termina em 2024 e até agora a população ainda não sentiu qualquer efeito de medidas antipoluição que fazem parte do acordo. O plano contempla todas as desconformidades ambientais com ações específicas para corrigir cada uma delas.
Detalhe: do conjunto de 35 ações, duas delas são justamente para resolver o problema das partículas de pó preto: a instalação de equipamentos nas sinterizações, que têm previsão de acontecer até meados deste ano, e o enclausuramento das correias que transportam materiais particulados no interior da Usina que irão impedir o lançamento das partículas do pó preto.
Só para se ter uma ideia do problema causado, em 2017 a CSN correu o risco de ter as atividades paralisadas pelo descumprimento do primeiro TAC, assinado em março de 2016. Na ocasião, a CECA (Comissão Estadual de Controle Ambiental) chegou a conceder um prazo de dez dias para a empresa apresentar um cronograma de cumprimento e encerramento total do TAC, sob ameaça de interdição.
Com o intuito de agilizar e fazer com que a empresa cumprisse com suas responsabilidades ambientais, uma nova deliberação foi assinada, concedendo um prazo de 180 dias para que a CSN atendesse todas as normas do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), sob pena de ter as atividades suspensas. Para isso, a empresa assinou um acordo com a Secretaria de Estado do Ambiente (SEA) e o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) onde aceitou entrar em tratativas com os dois órgãos, resultando na assinatura do novo TAC.
Análise detalhada
O trabalho de análise para elaborar o TAC demorou nove meses. Documentos, laudos, relatórios, dezenas de vistorias e muitas horas de debate técnico entre os analistas ambientais mais capacitados de seu quadro foram envolvidos durante todo o processo.
Na época, o presidente do Inea, Marcus Lima, considerou o novo TAC um avanço nas questões ambientais que sempre envolveram a CSN.
"É importante ressaltar que este não é apenas mais um TAC. Estamos, pela primeira vez, garantindo a realização de ações que atenderão, de forma definitiva, a justa demanda da população de Volta Redonda por uma qualidade do ar minimamente adequada para sua saúde", disse.
Montanha de escória
Uma verdadeira montanha de escória, no bairro Brasilândia, é outra prova do descaso da CSN com os moradores de Volta Redonda. Maurineia Gonçalves, de 75 anos, moradora do bairro há pelo menos 47 anos, afirma que a poluição piora a cada dia. "Eu já moro aqui há mais ou menos 47 anos e essa poluição está cada dia pior e como esse bairro tem muito idoso a gente tem sofrido muito. Vivo sempre com a vista irritada, precisando pingar colírio, fazendo nebulização, com alergias no nariz e com garganta irritada, sem contar a sujeira que esse pó causa nas casas, fazendo a gente precisar lavar praticamente todo dia e manter a casa fechada."
A associação de moradores do bairro afiram ter feito contato com a CSN, porém sem obter êxito. "A associação de moradores da Brasilândia se reuniu alguns anos atrás e fez um abaixo-assinado sobre o assunto, mas sem sucesso", comentou Maurineia.
Anderson Ramos, de 55 anos, falou sobre o assunto. "Em épocas de seca fica ainda pior do que a noite essa situação, a prefeitura manda um caminhão que joga água para tentar resolver mas o que ajuda mesmo foram as árvores que os próprios moradores plantaram na entrada do bairro e reflorestou o lugar", explicou.
A assessoria da CSN foi procurada para falar sobre o assunto, mas o atual assessor da empresa, o jornalista Aurélio Paiva, enviou o link de uma reportagem divulgada no Diário do Vale, jornal que pertencia a ele.