A mudança não pode esperar
Domingo à noite, o Brasil escolherá um presidente. Segunda-feira de manhã, milhões continuarão fazendo contas: a prestação que vence, o crédito que falta, a empresa que precisa sobreviver. O próximo governo terá de dar respostas a essas pessoas. Minha posição é favorável à mudança representada por Flávio Bolsonaro. Mas qualquer vencedor precisará de reformas e capacidade de entendimento.
A eleição discutiu mais o passado do que o futuro. Produtividade, inteligência artificial, turismo e meio ambiente ficaram à margem. Temos oportunidades extraordinárias que precisam se transformar em prosperidade. O Brasil precisa se olhar no espelho.
Os indicadores revelam as amarras. No Doing Business 2020, última edição do levantamento do Banco Mundial, descontinuado em 2021, o país ficou em 124º entre 190 economias. No índice de liberdade econômica da Heritage de 2026, ocupa o 134º lugar. A dificuldade de produzir limita a renda que podemos distribuir.
A educação expõe outro bloqueio. No Pisa 2025, o Brasil alcançou 377 pontos em matemática, ante 379 em 2022 e 463 na média da OCDE. A variação não é estatisticamente significativa: o problema é uma década de estagnação em nível baixo. A escola que pouco avança compromete o salário de amanhã.
A história ensina. O Real, lançado sob Itamar e consolidado por Fernando Henrique, protegeu salários da inflação. FHC avançou com privatizações, competição nas telecomunicações, reorganização bancária pelo Proer e Proes, renegociação das dívidas estaduais e Lei de Responsabilidade Fiscal. Somaram-se o câmbio flutuante e as metas de inflação.
Lula recebeu esses benefícios, contou com conjuntura externa favorável e ampliou o crédito. Houve reformas pontuais, mas faltou continuidade à modernização do Estado e do ambiente produtivo. A distribuição dos frutos ganhou precedência sobre a renovação das condições de produzi-los.
Sob Dilma, os desequilíbrios desembocaram numa perda acumulada próxima de 6,7% do PIB em 2015 e 2016. Temer retomou as reformas: teto de gastos, modernização trabalhista, Taxa de Longo Prazo e Programa de Parcerias de Investimentos. Durante seu governo, a Selic caiu de 14,25% para 6,5%, acompanhando a desinflação e a recuperação da confiança.
Hoje, a dívida cobra uma resposta. O endividamento bruto do governo geral passou de 71,7% do PIB, no fim de 2022, para 82,9% em agosto de 2026. Nas empresas, as dívidas negativadas saltaram de R$ 149,1 bilhões, em agosto de 2024, para R$ 244,4 bilhões dois anos depois. São 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes, incluindo 8,8 milhões de micro e pequenas empresas.
O auxílio aos MEIs pode aliviar o caixa. Mas, se os juros e os custos de empreender continuarem elevados, a necessidade de ajuda reaparecerá. O nacional-consumismo encontra seu limite quando famílias e negócios precisam tomar emprestado para continuar funcionando. A autonomia exige capacidade de investir.
Enquanto isso, investimentos aguardam. Em 2025, a MoveInfra estimou em R$ 1,7 trilhão os recursos associados a mais de 3.500 projetos parados por falta de licenciamento ambiental. Preservar exige rigor, clareza e prazo. A demora também custa empregos e infraestrutura.
Permitimos a expansão das bets enquanto adiamos o debate sobre resorts integrados com cassinos e investimento turístico. A natureza pode sustentar conservação e prosperidade. A inovação precisa transformar escolas, empresas e serviços públicos.
Reformar exigirá enfrentar interesses consolidados. Emendas impositivas que fragmentam prioridades, supersalários e despesas ineficientes comprimem o espaço para investir. O Congresso precisará participar da correção das próprias distorções. Governar será negociar com quem também terá de mudar.
Se Lula vencer sem corrigir a trajetória fiscal, juros altos e dificuldades empresariais poderão persistir. Se Flávio vencer sem construir entendimento, reformas essenciais poderão não ser aprovadas. Sem reformas, o desequilíbrio continua. Sem diálogo, as reformas podem fracassar.
É por isso que o pacto de Michel Temer deve ocupar o centro da discussão. Em Estrada para o Futuro, ele propõe convocar, nos primeiros dias, um Pacto Republicano envolvendo os Poderes, a oposição e a sociedade civil. A pacificação deve criar condições para governar e investir.
A transição precisa preparar equipe, propostas e acordos. Os primeiros seis meses devem concentrar as reformas centrais: ajuste fiscal, simplificação regulatória e liberdade econômica. Credibilidade fiscal, inflação controlada e concorrência bancária podem abrir caminho para juros menores no crédito pessoal e empresarial.
A eleição termina no domingo. Segunda-feira, o povo brasileiro em primeiro lugar. O pacto deve viabilizar as reformas; as reformas devem devolver às pessoas a oportunidade de prosperar. A mudança não pode esperar.
*Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.