Classe média de joelhos

Por Vinicius Lummertz

82% das famílias estão endividadas e quase 30% têm contas em atraso.

Há uma palavra que parte da esquerda brasileira ainda pronuncia quase como ofensa: burguesia. "Pequena burguesia" também foi usada durante décadas para diminuir justamente quem conseguia subir alguns degraus na escala social: o pequeno comerciante, o profissional liberal, o autônomo, o trabalhador que acumulava algum patrimônio.

É uma deformação histórica. A ascensão burguesa ajudou a derrubar o absolutismo e os privilégios hereditários; mais tarde, milhões de trabalhadores ascenderam e formaram as grandes classes médias sobre as quais a Europa do pós-guerra construiu parte importante de sua social-democracia. Não bastava proteger o trabalhador, era preciso permitir que ele subisse, poupasse, formasse patrimônio e conquistasse liberdade de escolha.

O Brasil parece ter esquecido esse objetivo. Construímos uma sociedade de consumo de massa sem construir uma sociedade de renda de massa. A modernidade chegou às vitrines, aos supermercados e às concessionárias, mas não, na mesma proporção, à renda das famílias.

A comparação com os Estados Unidos ajuda a revelar a distorção. A renda domiciliar mediana americana alcançou US$ 83.730 anuais em 2024 e, além de ganhar muito mais, o consumidor encontra impostos sobre o consumo e juros menores. Um Toyota Corolla 2026 de entrada custa cerca de US$ 23.100 nos Estados Unidos e US$ 33.400 no Brasil, aproximadamente 44% a mais; um iPhone 16 de 128 GB, US$ 829 contra cerca de US$ 1.330, diferença próxima de 60%.

O brasileiro ganha muito menos, paga mais pelos mesmos produtos globais e, quando precisa financiá-los, encontra juros várias vezes superiores. Mesmo no consignado do INSS, de risco baixo, as taxas ficam próximas de 20% a 25% ao ano; no cartão rotativo, chegam a centenas por cento. Como formar patrimônio assim?

O resultado aparece nas famílias: 82% estão endividadas e quase 30% têm contas em atraso. A classe média vive comprimida e atemorizada, com medo de perder a casa, o carro, a escola dos filhos, o plano de saúde ou a pequena poupança. Depois dos impostos, ainda compra educação, saúde e segurança que esperava receber com qualidade do Estado. Paga como contribuinte e volta a pagar como consumidor.

Há ainda uma perversidade cultural. Parte da mídia, dos intelectuais e das universidades, sob uma visão de esquerda que ainda desconfia da "burguesia" e da "pequena burguesia", impinge à classe média uma espécie de culpa pelo pouco que conseguiu conquistar, quando combater a desigualdade deveria significar permitir que milhões subam, e não constranger quem já subiu alguns degraus.

Para muitas famílias, a dívida deixou de antecipar a aquisição de patrimônio e passou a financiar o cotidiano, consumindo hoje a renda que ainda será ganha amanhã. Poderíamos chamar esse fenômeno de descapitalismo, porque uma economia capitalista saudável deveria favorecer o movimento contrário: trabalho produz renda, parte da renda transforma-se em poupança, a poupança forma patrimônio e financia investimento, e o investimento sustenta produtividade e melhores salários.

Nos Estados Unidos, 58% das famílias possuem ações direta ou indiretamente. A classe média americana também se endivida, mas acumula casas, ações, fundos e ativos previdenciários; é devedora, mas também proprietária. No Brasil, uma parcela enorme da classe média tornou-se predominantemente devedora.

Nossa taxa de poupança foi de apenas 14,4% do PIB em 2025 e a de investimento, 16,8%. Pouca renda disponível, baixa poupança, capital caro, investimento insuficiente e baixa produtividade alimentam uma descapitalização que atinge justamente quem deveria protagonizar a mobilidade social: trabalhadores, profissionais liberais, autônomos e pequenos empresários.

A China, por outro caminho, retirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema combinando crescimento, investimento, industrialização, infraestrutura, produtividade e empreendedorismo. O Brasil criou expectativas de prosperidade sem construir suficientemente as condições para sustentá-la.

E aqui está uma questão que deveria ocupar o centro da política brasileira: por que nenhum grande partido ou candidato à Presidência coloca entre os objetivos nacionais a construção de uma sociedade majoritariamente de classe média, estabelecendo metas de renda, produtividade, poupança, patrimônio e mobilidade social? Talvez porque isso exigisse enfrentar impostos elevados, juros proibitivos, baixa produtividade, desperdício público, privilégios e estruturas que se beneficiam do modelo existente.

O problema brasileiro não é termos burgueses demais, mas classe média de menos. Democratizamos o acesso ao consumo sem democratizar na mesma velocidade a formação de patrimônio, deixando milhões de brasileiros numa situação em que consumir tornou-se possível, mas poupar, investir e adquirir ativos continua extraordinariamente difícil.

É essa a classe média de joelhos: paga impostos elevados, compra novamente serviços que o Estado não lhe entrega adequadamente, paga caro pelos produtos, financia a juros altos e ainda é constrangida pelo pouco que conseguiu acumular. Enquanto isso, milhões de brasileiros tentam chegar até ela.

Talvez a pergunta mais importante a fazer aos candidatos à Presidência seja, portanto, muito concreta: qual é o plano, com metas e prazos, para fazer do Brasil uma sociedade majoritariamente de classe média?