Vinicius Lummertz | Qual seria a nossa Big Beautiful Bill?

EUA reduziram o custo do investimento, Paraguai o custo de produção e o Brasil vive com o custo da complexidade e com juros estratosféricos

Por Vinicius Lummertz

Os Estados Unidos compreenderam há muito tempo que cérebros também são ativos estratégicos

A Big Beautiful Bill foi recebida no Brasil mais como um episódio da política americana do que como um fato econômico de alcance internacional. É compreensível. Donald Trump desperta reações fortes e frequentemente atrai a atenção para sua figura teatral. Ainda assim, reduzir a discussão à polarização americana significa ignorar uma questão muito mais interessante: por que a maior economia do mundo decidiu voltar a falar de indústria, investimento produtivo, capacidade tecnológica e atração de capital em uma escala que não se via há décadas?

A resposta ajuda a compreender a transformação da economia global. Durante anos, os Estados Unidos conviveram com déficits comerciais recorrentes, déficits fiscais crescentes e a transferência de parcelas importantes de sua capacidade industrial para outras regiões do mundo. A ascensão da China como potência manufatureira e tecnológica alterou esse equilíbrio e levou Washington a reavaliar prioridades. A Big Beautiful Bill faz parte desse movimento.

Entre seus instrumentos estão mecanismos de depreciação acelerada, incentivos ao investimento produtivo, estímulos à expansão industrial e medidas voltadas à atração de empreendimentos considerados estratégicos. Em termos simples, trata-se de reduzir o custo do investimento, melhorar o retorno do capital e tornar o território americano mais atraente para empresas, tecnologia e produção. Quando uma empresa consegue recuperar mais rapidamente o investimento realizado em fábricas, equipamentos ou infraestrutura tecnológica, o projeto torna-se mais rentável e a decisão de investir torna-se mais fácil.

Os sinais emitidos pelo mercado sugerem que essa mensagem foi compreendida. A Apple anunciou investimentos superiores a US$ 500 bilhões nos Estados Unidos. A TSMC ampliou seus planos para cerca de US$ 165 bilhões. O projeto Stargate, envolvendo OpenAI, SoftBank e Oracle, trabalha com cifras que podem alcançar US$ 500 bilhões em infraestrutura voltada à inteligência artificial. Empresas japonesas, coreanas, taiwanesas e europeias ampliam sua presença produtiva em território americano, enquanto capitais oriundos do Oriente Médio participam da mesma corrida por tecnologia, energia e capacidade industrial.

Esse movimento não é uma exclusividade americana. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes e a Índia também reorganizam suas estratégias para atrair investimentos, tecnologia e produtividade. Mesmo a Europa, historicamente mais regulada, voltou a discutir competitividade com uma intensidade que parecia esquecida.

Nesse contexto, talvez a comparação mais desconfortável para o Brasil esteja logo ao lado. Sem possuir nosso mercado consumidor, nossa escala econômica ou nossos recursos naturais, o Paraguai vem atraindo empresas brasileiras por meio de energia barata, simplicidade tributária, previsibilidade regulatória e custos operacionais reduzidos. Quando uma empresa decide produzir além da fronteira, não está apenas mudando de endereço; está emitindo um julgamento econômico sobre o ambiente de negócios que considera mais favorável.

A disputa contemporânea tampouco se limita ao capital. Ela alcança os talentos. Boa parte da liderança tecnológica americana foi construída por imigrantes ou filhos de imigrantes atraídos por universidades de excelência, mercados sofisticados e abundância de capital de risco. O brasileiro Eduardo Saverin é apenas um entre milhares de exemplos. Os Estados Unidos compreenderam há muito tempo que cérebros também são ativos estratégicos. O Brasil, que entre o final do século XIX e o início do século XX foi um país aberto à imigração e à incorporação de capacidades produtivas, raramente discute como atrair capital humano qualificado ou transformar conhecimento em vantagem competitiva.

O contraste deve servir para reflexão. Continuamos figurando entre os principais destinos de investimento estrangeiro direto do mundo e possuímos ativos extraordinários: energia limpa, recursos minerais estratégicos, agronegócio competitivo, biodiversidade incomparável e um mercado interno de dimensão continental. Ainda assim, convivemos com projetos travados por anos, insegurança regulatória, custos de transação elevados e uma burocracia persistente. O peso do chamado red tape continua sendo um dos principais freios ao investimento.

Os Estados Unidos decidiram reduzir o custo do investimento. O Paraguai decidiu reduzir o custo da produção. O Brasil continua convivendo com o custo da complexidade e com juros estratosféricos.

A urgência dessa reflexão torna-se mais evidente quando observamos os resultados. O crescimento brasileiro das últimas duas décadas foi modesto para uma economia com os ativos que possui. Quando descontado o crescimento populacional, o avanço da renda por habitante revela desempenho ainda mais limitado. No mesmo período, diversas economias asiáticas ampliaram a produtividade, atraíram investimentos e consolidaram posições de destaque em setores estratégicos.

A relevância da Big Beautiful Bill para o Brasil não está em seus detalhes legislativos nem na possibilidade de reproduzi-la integralmente. Sua utilidade está em expor uma diferença de atitude diante de um mundo que voltou a disputar investimentos, tecnologia, produtividade, fábricas e talentos com intensidade crescente.

A questão que emerge dessa discussão é menos americana do que brasileira. Ela não diz respeito ao que os Estados Unidos decidiram fazer de si mesmos. Diz respeito ao que pretendemos fazer de nós mesmos. Em algum momento será necessário transformar vantagens em estratégia, estratégia em investimento e investimento em prosperidade. Poucas discussões serão tão importantes para o próximo ciclo político brasileiro quanto essa. E essa decisão ainda não foi tomada.

*Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.