Por: Vicente Loureiro*

A translação dos centros urbanos

O Centro da cidade do Rio de Janeiro. Destaques centrais nesta foto: Catedral Metropolitana, O Circo Voador e ao lado o aqueduto com os Arcos da Lapa. | Foto: Leandro Ciuffo - Flickr

Recentemente, a revista digital Humboldt, editada pelo Goethe Institut, publicou um número especial dedicado a discutir o conceito de "centro" em seus variados aspectos. Um deles, o dos centros urbanos, destacando as mudanças que se tornaram visíveis nos últimos anos, principalmente naqueles localizados na América Latina e tentando responder, com a ajuda de especialistas, quais os rumos que as formas de convivência e movimentos cotidianos tomarão em cada um no futuro próximo.

Diante de uma experiência marcada pela obsolescência, degradação e até desocupação parcial de alguns dos mais notáveis centros urbanos do continente, parece-me necessário recalcar a batida definição de que o centro da cidade ou metrópole, como no caso do Rio, " é o local para o qual muitas pessoas convergem, para onde costumam se dirigir e onde se dá grande parte de determinadas atividades". É nele " o lugar onde a população se socializa, se informa e se expressa". Em geral, o setor da cidade onde estão gravados seus principais símbolos identitários e responsáveis pelo grau de pertencimento e orgulho de sua população.

No entanto, transformações que se tornaram ainda mais visíveis pós Covid sacudiram convicções sobre o papel dos centros urbanos. É inegável o esvaziamento de suas atividades com visível aviltamento da paisagem urbana. Produto do fechamento de empresas, do abandono de edifícios inteiros e do espaço público ocupado por camelôs e população em situação de rua. A escritora argentina Natália Laube, em artigo publicado na Hamboldt, compara a decadência do centro de Buenos Aires a um caso de desamor afirmando: "não há momento que algo assim acontece, embora haja um momento revelador que se percebe que as coisas mudaram".

Saber que as cidades crescem e surgem novas centralidades não é suficiente para dar conta de enfrentar as sequelas deixadas pelo abandono de suas áreas centrais. Iniciativas em curso estão afinadas, fala-se em todas de resgatar o centro do esquecimento, de repovoá-lo, ressignificando, para tanto, os edifícios comerciais em residenciais. Reduzindo, através de ações econômicas, urbanísticas e culturais, as vulnerabilidades sociais presentes. Já há exemplos exitosos aqui e em outras cidades, mas o processo é lento e custoso. Continuidade e integração de políticas públicas são ainda desafios a considerar.

Não é recente a perda de vitalidade econômica do centro do Rio. A opção nos primórdios do século passado de torná-lo um centro monofuncional de comércio e serviços, deslocando o interesse das pessoas de nele fixarem residência, talvez seja a causa matriz, porém a transferência da capital para Brasília e do CEP do setor financeiro para São Paulo foram também golpes duros, com impactos sentidos até hoje. Não são essas as únicas razões do esvaziamento já percebido a vista d'olhos. Muitas atividades comerciais e de prestação de serviços migraram para os bairros contíguos ao centro em direção à zona sul e à Tijuca, seguindo depois rumo à Barra da Tijuca. Sem deixar de considerar também o fortalecimento notável de outras centralidades metropolitanas como Niterói, Campo Grande e Nova Iguaçu, entre outras.

O centro do Rio já não é mais o que foi faz tempo. Deve guardar com afinco suas funções de caráter metropolitano e regional insubstituíveis. Precisará, contudo, saber se reinventar, voltando a ser um bom lugar para trabalhar, visitar, usufruir dos inúmeros e atraentes atributos culturais, recreativos, educacionais e de saúde nele acumulados. Viver e viver bem e em paz, ainda é possível e absolutamente necessário.

*Arquiteto e urbanista

 

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