Flávio tem razão: nos EUA, Brazil é mesmo com Z
Flávio dá recado a Tarcísio de que quer se manter líder da oposição, e lembra que o país já foi chamado de Estados Unidos do Brazil, com "Z", como na terra de Trump
Atenção: pode ter sido uma pegadinha essa carta do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ex-candidato ao Palácio do Planalto. A primeira versão do documento que distribuiu nesta quarta-feira, 28, veio com um selo antigo do Brasão da República em que o país é chamado de “Estados Unidos do Brazil”.
A pegadinha seria chamar a atenção para a falta que os bolsonaristas acreditam que faz, no currículo atual das escolas, o ensino de matérias como Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB).
As disciplinas foram incluídas nos currículos escolares em 1969 – durante a ditadura militar que ele tanto defende – com o objetivo de alinhar a educação aos “bons costumes”, às leis e às instituições do Estado. Sobretudo a disciplina Moral e Cívica era voltada para o ensino fundamental. Focava no culto aos símbolos nacionais, como o Brasão da República. Com a redemocratização do país, essas matérias foram retiradas do ensino público.
Também pode ter um outro recado no texto. Os mais antigos sabem que um dia o país foi chamado de Estados Unidos do Brasil. Quem sabe, Flávio não estava querendo lembrar isto aos que viram sua carta? Quem sabe ele não está querendo que voltemos a nos chamar assim, “Estado Unidos”. Afinal, tem tudo a ver lembrar disso neste momento em que ele está lá na pátria de seu ídolo, o presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump.
Por aqui, a nomenclatura Estados Unidos do Brasil foi adotada na Proclamação da República e oficializada na Constituição de 1891. Curiosamente, foi extinta também no período do regime militar, com a Constituição de 1967, quando passamos a nos chamar de República Federativa do Brasil.
Um outro detalhe curioso da primeira versão da carta de Flávio Bolsonaro: a “República Federativa do Brazil” estava escrita assim mesmo, com “Z”, como nosso país é chamado na língua pátria de Donald Trump. O problema é que aí fica mal para quem foi candidato a presidente. Lembra aquela música que Elis Regina cantava: “O Brazil não conhece o Brasil.” Um candidato tem que conhecer o país que pretende dirigir.
Uma segunda versão da carta foi distribuída, sem o “Brazil” com Z e com a nomenclatura atualizada de “República Federativa do Brasil”. Mas teve uma terceira versão revisada do documento na qual ele apagou o trecho em que se dizia “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Substituiu por “o líder do Brasil”
foi interpretado como uma forma de dizer que pretende continuar liderando a oposição ao governo de olho nas próximas eleições presidenciais. Estaria apontando as baterias para seus próprios aliados no campo da direita. Especialmente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que já fala como um possível candidato a presidente da República em 2030.
Tarcísio sentiu o golpe e respondeu à carta de Flávio como um estadista:
“A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, entendo sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”. O governador afirmou ainda que o momento exige “responsabilidade, serenidade e a construção de uma oposição forte”. E defendeu que a atuação dos oposicionistas ocorra dentro das instituições para fortalecer o sistema de freios e contrapesos da democracia.