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PL quer manter o bolsonarismo sem os Bolsonaro

Presidente da sigla, Valdemar Costa Neto já discute internamente o funcionamento do partido livre do controle do clã Bolsonaro, mas sem espantar os bolsonaristas

Por Tales Faria

Valdemar Costa Neto discutiu nova estratégia com Michelle Bolsonaro

Os caciques originários do PL não admitem publicamente, mas estão felizes da vida com a fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos depois da derrota na eleição presidencial. Agora eles estão livres para realmente comandar a sigla.

Já na segunda-feira, 26, contrariando manifestação do senador Flávio Bolsonaro (PL), o PL reconheceu a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa. Flávio havia afirmado, um dia antes, ser "impossível reconhecer" o resultado. Ele anunciou que pediria a anulação do pleito.

Mas em sua nota, quando insistiu em reconhecer "o resultado presidencial" proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, usou um tom diferente. Declarou em nota pública que o partido seguirá atuando "com responsabilidade, transparência e respeito às instituições".

Já na terça-feira Valdemar começou a preparar o partido para funcionar livre do jugo do clã Bolsonaro. Se Flávio fosse eleito, manteria o controle total sobre a sigla com o argumento de que a legenda teve um "excelente resultado" nas urnas graças ao patrimônio eleitoral de seu pai, Jair Bolsonaro. O PL elegeu bancadas de 121 deputados federais. 29 senadores, 229 deputados estaduais e distritais, além de seis governadores.

No entanto, o ex-presidente está inelegível e condenado a 27 anos de prisão pela tentativa de golpe de estado. Seu outro filho com alguma projeção política, Eduardo Bolsonaro, também está exilado nos EUA. Os três não têm condição de comandar a legenda à distância.

Sobrou no Brasil, com destaque na política, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que não mantém um bom relacionamento com os filhos do ex-presidente. Mas ela se dá bem com Valdemar Costa Neto e nunca disputou o comando do partido com ele. Nesta terça-feira, 27, Valdemar fez questão de se encontrar com a ex-primeira-dama. Discutiram reservadamente a estratégia de ambos na ausência de Flávio, Eduardo e do próprio chefe do clã.

Valdemar também promoveu uma reunião com outros integrantes da cúpula da sigla. Ouviu reclamações pelo fato de o candidato derrotado não ter comunicado a nenhum deles sua intenção de fugir. A opinião generalizada era de que ele devia ter permanecido no país para a sigla se beneficiar dos 60 milhões de votos obtidos no segundo turno das eleições, atraindo outras legendas para sua área de influência na oposição.

Ao deixar a reunião, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha eleitoral de Flávio, admitiu ter sido surpreendido pelo candidato derrotado à Presidência, que só lhe mandou uma mensagem afirmando que desejava "dar um tempo".

O partido sempre foi dividido entre filiados originais à legenda, considerados mais moderados, e aqueles que só vieram por causa do clã Bolsonaro, tidos como radicais.

Reservadamente, um dos integrantes originais da sigla afirmou: "A sensação é de que fomos traídos. Toda vez que eles tomam alguma decisão importante, ignoram quem não é da família."