Flávio Bolsonaro e arte de não quebrar sigilos
Como a coluna antecipou, o candidato do PL aceitou o desafio de Lula, mas encontrou uma forma de inviabilizar a abertura de dados
Desafiado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a abrirem ambos seus sigilos bancários, fiscais, telefônicos e telemáticos, o candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) respondeu com uma peça que entrará para a história das eleições. Entrará na forma de uma lição de como aceitar um desafio e inviabilizá-lo.
A coluna havia antecipado, no dia 20, que Flávio estava estudando aceitar o desafio de Lula "com restrições", procurando aproveitar a execução "muito complexa" da quebra de sigilo, o que daria margem a ser furada.
O candidato do PL enviou um documento afirmando que entregará seus sigilos, mas depois que Lula atender às condições impostas no texto. Afirma de antemão que "não é sócio, administrador nem beneficiário da Alcazar Holdings, razão pela qual não dispõe dos respectivos dados bancários e fiscais" da empresa. Ou seja nada teria a entregar sobre ela.
Lula cobrou o rompimento do sigilo da Alcazar Holdings por ser uma offshore pertencente ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro, que é registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, com filial no Brasil. Documentos e e-mails obtidos pela Polícia Federal apontam que o candidato teria sido cadastrado como "usuário master" de uma conta bancária da empresa no banco Santander, levantando suspeitas sobre possível sociedade oculta em negócios vinculados ao setor de apostas.
Flávio Bolsonaro respondeu que "não tem absolutamente nada a esconder" e que autoriza o levantamento dos outros sigilos pedidos por Lula "com uma única condição", que o adversário acrescente à autorização sobre seus sigilos enviada à Justiça "todas as informações que há muito clamam pelo melhor desinfetante: a luz solar".
Ele enumera como condição, num documento de 34 itens, que Lula apresente "termos individuais de autorização assinados pelas próprias pessoas" de seus cinco filhos, esposas, representantes legais das empresas das quais são sócios. Um mínimo de 21 pessoas, podendo chegar a centenas, pois inclui todas as empresas e seus proprietários que receberam recurso do Instituto Lula, por exemplo, e assessores do Palácio do Planalto e do Alvorada que tiveram acesso a aparelhos telefônicos nos quais Lula tenha recebido ou dado telefonemas.
Também cobra todos os possíveis registros de uma dezena de pessoas sobre a entrada e saída na residência oficial do presidente e no Palácio do Planalto. Entre essas, estão a lobista Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luiz Lula da Siva, o Lulinha; o ex-dono do Banco Master Daniel Vorcaro; o ex-ministro Guido Mantega; e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula. No caso da amiga de Lulinha, também são exigidos registros dos voos da FAB (Força Aérea Brasileira) em que ela tenha viajado.
É praticamente impossível que essa documentação seja levantada até o próximo domingo, 25, dia da eleição. Muito menos até sexta-feira, 23, quando haverá o último debate da campanha eleitoral, transmitido pela TV Globo.
O documento de resposta de Flávio Bolsonaro ao desafio de Lula é apenas uma peça enviada pelo candidato para ser usada no caso de o adversário afirmar que ele fugiu do desafio. "Não. Não fugi. Mandei uma resposta cobrando igualmente os itens de seus sigilos que acho importante serem abertos à opinião pública. E você não abriu."