União-PP: cabeça de sardinha ou rabo de pescada?
Senadora Tereza Cristina atende a apelo de Flávio Bolsonaro para discutir a hipótese de ser vice da sua chapa, o que provocará muita polêmica na federação União Progressista
Existe um antigo provérbio português muito curioso. Ele tem duas versões usadas com significados opostos apenas mudando-se a posição de algumas palavras. Usa a anatomia dos peixes para comparar o status nas relações sociais ou de trabalho
Sua primeira versão diz o seguinte: "Mais vale ser rabo de pescada do que cabeça de sardinha." A segunda versão é apenas uma inversão de palavras: "Mais vale ser cabeça de sardinha do que rabo de pescada."
A pescada é um peixe maior e de maior valor do que as sardinhas. Na primeira versão, a ideia é que vale mais ocupar uma posição menor, mas integrada a uma estrutura importante, do que estar no comando de algo muito pequeno. A segunda versão, de sentido oposto é muito usada entre empreendedores. Defende que é melhor ser dono de seu próprio negócio, embora pequeno como uma sardinha, do que ser o funcionário anônimo de uma grande empresa.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS) se meteu num dilema ainda maior.
Ela estava se preparando para disputar a posição de cabeça de tubarão no Congresso, como pré-candidata a presidente do Senado, com grandes chances de obter o apoio dos partidos do centrão e do PL. E até de fechar acordo com o PT depois que o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), entrou em rota de colisão com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nesta quinta-feira, 30, a senadora ouviu um apelo do colega Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para ser vice na sua chapa ao Planalto. Não bateu o martelo, mas teve que aceitar, pelo menos, discutir o assunto. Afinal ela foi bem tratada como ministra da Agricultura do pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Aceitou avaliar a hipótese de se tornar personagem coadjuvante, da eleição presidencial, justamente nesse momento em que a campanha do PL, em crise, se vê obrigada a trocar a equipe de comunicação.
Para Flávio, fechar agora com a senadora é uma oportunidade de calar as críticas de que não consegue nem sequer arrumar uma companheira de chapa. Mas Tereza não acrescenta muitos votos. Ela vem do agronegócio, que já fecha com o clã Bolsonaro. Seu estado, o Mato Grosso do Sul, é o 20º eleitorado do país, com apenas cerca de 2 milhões de eleitores.
Na eleição de 2018, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a pensar em ter como vice a também senadora pelo Mato Grosso do Sul Simone Tebet (então no MDB). Mas Lula acabou se decidindo por Geraldo Alckmin (PSB), do estado com maior eleitorado do país, São Paulo.
Entrar na chapa com o PL significa, para Tereza Cristina, abrir uma batalha dentro da federação partidária do União Brasil com o PP, que já estavam decididos a não se juntar com nenhum candidato à Presidência. Há estados em que estão fechados com Lula e outros, com Flávio Bolsonaro, além de estados com apoio majoritário ao candidato à Presidência pelo PSD, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado.
O presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira (PI), já havia anunciado que não apoiaria ninguém. Agora terá que se reunir, possivelmente neste final de semana, com o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, para saber como levam o assunto à convenção unificada das duas legendas. E como evitar que se transformem em rabo de sardinha.