Mendonça foi decisivo no pedido de perdão de Flávio Bolsonaro

Decisão do ministro do STF abrindo inquérito sobre pedido de dinheiro ao dono do Banco Master foi recebida como pressão insuperável do aliado da ex-primeira-dama

Por Tales Faria

Então primeira-dama comemorando aprovação de André Mendonça pelo Senado Federal

O ministro André Mendonça foi nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF) por indicação do então presidente da República, Jair Bolsonaro (PL). Mas, por trás de Bolsonaro estava sua mulher, Michelle. Essa, sim, fez campanha aberta pela posse do ministro, evangélico como ela própria.

A então primeira-dama tomou André Mendonça pelo braço e percorreu gabinetes de Brasília, especialmente do Senado Federal, em busca de apoio à aprovação do nome do ex-advogado-geral da União pelos senadores.

Era um momento difícil da relação do presidente da República com o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), na época um poderoso ex-presidente da Casa que elegeu seu sucessor.

Alcolumbre segurou por três meses a realização da sabatina, até que o chefe do Executivo cedesse a suas cobranças por benesses. Da mesma forma que fez agora como presidente do Senado, barrando a indicação para o STF do advogado-geral da União, Jorge Messias, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Michelle Bolsonaro (PL) não se fez de rogada. Insistiu e consegui fazer de Mendonça ministro do STF. Empolgada com a aprovação, foi filmada dançando, pulando e rezando em "dom de línguas" (glossolalia), uma linguagem espiritual ininteligível comum em igrejas pentecostais e neopentecostais.

No meio político, vê-se André Mendonça como mais michelista do bolsonarista. E é exatamente dessa forma que os aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entenderam a decisão do ministro, nesta quarta-feira, 22, autorizando a Polícia Federal a investigar os repasses ao filme Dark Horse.

A Diretoria de Combate ao Crime Organizado e à Corrupção da PF vai apurar como foram aplicados os aproximadamente R$ 61 milhões que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro mandou para o filme a pedido de Flávio.

Não é uma apuração fácil, nem rápida. Deve durar alguns meses. Pode mesmo ultrapassar o mês das eleições, outubro, ou chegar perto.

A equipe da campanha eleitoral e o comando do PL viram na decisão de André Mendonça um gesto em favor de Michelle com grande potencial de influir negativamente na derrota do filho do ex-presidente da República e pré-candidato Palácio do Planalto. Afinal, a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas começou quando foi revelado seu telefonema pedindo dinheiro para Daniel Vorcaro.

Pior. A queda se acentuou muito no eleitorado feminino e evangélico a partir do o vídeo em que Michelle denunciou ter sido maltratada pelo enteado. Segundo ela, Flávio nem sequer lhe dirigia a palavra ao entrar em sua casa para ver o pai.

O pré-candidato foi convencido, então, a gravar o vídeo divulgado nesta quinta-feira, 23, com pedidos explícitos de desculpas à madrasta e convidando-a a participar de sua campanha. Michelle curtiu o vídeo e respondeu, nas redes sociais, que aceita como um pedido de desculpas a genuflexão daquele que considera seu agressor.

Quem conhece o clã Bolsonaro, sabe que o rancor é um sentimento que eles não costumam ignorar. Guardam no freezer para liberar no momento propício.