Áudios de Flávio Bolsonaro com Vorcaro no horário eleitoral do PT
PT já consulta advogados para exibir no horário eleitoral os aúdios em que Flávio pediu dinheiro ao dono do Master; especialista afirma à coluna que é preciso cuidado na exibição
O Partido dos Trabalhadores já consultou advogados para saber se poderá usar no horário eleitoral gratuito os áudios das conversas em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobrou de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o complemento do pagamento do filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Segundo o Intercept, que revelou os áudios, o orçamento do filme Dark Horse foi estimado em US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões). A maior parte do valor captado — cerca de R$ 61 milhões — foi repassada pelo ex-banqueiro. Teria sido transferido para um fundo nos Estados Unidos de um aliado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O restante foi interrompido com as investigações sobre o banco. "Estou e sempre estarei contigo", disse Flávio numa das trocas de mensagens com o banqueiro, a quem chamava de "meu irmão" e com quem se encontrou quando este esteve em prisão domiciliar.
A coluna buscou um jurista especialista na área. Encontrou um dos mais reconhecidos, o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Henrique Neves, a quem perguntou se dá para usar os áudios.
O ex-ministro respondeu que "depende da forma como o material será apresentado". Segundo ele, se o PT exibir o áudio junto com muitas interpretações sobre o que lá está dito, é possível que tenha problemas quando o assunto for submetido à Justiça Eleitoral. Mas, se o vídeo for apresentado sem adjetivações, há espaço para a exibição.
É isso que o PT está decidindo: qual o limite para ter o mínimo de problemas. Os advogados não dão uma resposta definitiva. Cada ministro poderá fazer uma análise diferente. Mas o áudio, por si só, é muito ruim para Flávio, não necessita de grandes interpretações. Eis a transcrição de alguns trechos:
"Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. Bom, aqui a gente está passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida, né? Não sei como é que vai ser daqui para frente, como é que isso tudo vai, vai acabar, mas está na mão de Deus aí. E você também, eu sei que você está passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda, você sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo. E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas enfim, é porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou pro filme, né?"
[...]"Então, se você puder me dar um toque, uma posição aí, Daniel, porque a gente precisa saber o que que faz, cara, da vida, porque já tem muita conta para pagar esse mês e o mês seguinte também. E agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo, cara. Todo o contrato, perde ator, perde diretor, perde equipe, perde tudo. Podendo dar um toque aí, irmão. Desculpa o áudio longo aí, tá? Um abração, fica com Deus, cara."
A experiência do PT é que, em casos assim, mesmo havendo condenação, a punição normalmente é tirar um ou dois programas do ar. Então, a princípio, vale o risco de exibir os áudios.