Resistência dos Bolsonaro a Tereza Cristina é temor de impeachment
Caso os Bolsonaro voltem ao poder, uma vice com trânsito na Faria Lima, no agro e com bancada forte poderia ser um verdadeiro chamariz para o impeachment
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus filhos já explicaram ao presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, o porquê de resistirem ao nome da senadora Tereza Cristina (PP-MS) como vice na chapa presidencial do senador Flávio Bolsonaro.
Valdemar disse com todas as letras a alguns aliados no partido: "O problema da senadora é que ela é boa demais. Mas para o centrão."
Segundo ele, foi o próprio Bolsonaro quem lhe passou essa avaliação. O ex-presidente teme que, na Vice-Presidência, ela sirva como um "cavalo de troia" do centrão, da mesma forma que o ex-vice-presidente Michel Temer teria funcionado no governo de Dilma Rousseff (PT).
Vice de Dilma desde a eleição de 2010, Temer foi reeleito presidente do maior partido do país, o PMDB, em março de 2016. Em maio, foi empossado interinamente na Presidência da República, cargo que exerceu até ser substituído por Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019.
Os petistas o chamam até hoje de "golpista" e afirmam que ele comandou as articulações pelo impeachment da então presidente da República.
Tereza Cristina teria base de apoio até maior do que Michel Temer caso se rebelasse. Ex-ministra da Agricultura e ex-presidente da bancada ruralista, caso se rebelasse, contaria com 300 deputados e 47 senadores ligados ao agronegócio. Além da direita moderada e parte da esquerda com quem tem bom trânsito, inclusive como ex-líder do PSB.
Sempre que perguntada sobre ser vice, a senadora desvia o assunto. Responde que Flávio Bolsonaro nunca a chamou para conversar. Ela já até esteve em eventos do agronegócio junto com o pré-candidato sem que se tocasse no assunto.
Flávio, inclusive, cometeu a gafe de chamá-la de "vovozinha", embora a senadora tenha 71 anos e ele fará 45 no próximo dia 31. Idade para ser filho, não neto. Mas o senador tentou consertar dizendo que ela parecia muito com sua avó.
A senadora, na verdade, almeja se tornar presidente do Senado na sucessão de Davi Alcolumbre (União-AP). Ela acredita ter boas chances se o PL e o centrão formarem, juntos, uma grande bancada. Neste caso, avalia que sua moderação em relação aos bolsonaristas também lhe dará chances de suceder Alcolumbre caso Lula se reeleja.
O problema é que, justamente por não integrar o grupo de bolsonaristas raiz, Tereza não conta coma confiança total do clã. Os Bolsonaro sabem que a chamada "Faria Lima" não morre de amores por eles. O governo Jair Bolsonaro não entregou as promessas de campanha do "Posto Ipiranga" Paulo Guedes, economista ultraliberal que assumiu o Ministério da Economia.
A expectativa da elite empresarial e dos militares era de tutelar o então presidente, mas isto não ocorreu, nem mesmo quando ele entregou mais poderes ao centrão no Congresso.
Seu filho Flávio repete as mesmas promessas e fala que, caso eleito, subirá a rampa do Palácio do Planalto com o pai. Dá a entender que Jair Bolsonaro voltará a governar o país.
Uma vice com trânsito na Faria Lima, no agro e com bancada forte poderia ser um verdadeiro chamariz para o impeachment.