PSD de Caiado excluiu aliados; Freire avisa que não o apoiará
"Com Caiado, teremos uma direita até mais reacionária do que o bolsonarismo", diz Roberto Freire, do Cidadania
Ex-presidente nacional do partido Cidadania, o ex-deputado Roberto Freire é um dos poucos sobreviventes da grande geração de políticos brasileiros responsável pela redemocratização do país.
Foi vice-líder no MDB de Freitas Nobre e de Ulysses Guimarães e também líder dos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.
Um comunista histórico e expoente da esquerda brasileira, Roberto Freire foi eleito como deputado federal por cinco mandatos pelo MDB, pelo PCB, PMDB, PPS e Cidadania, aí já como ex-comunista. Em 1994, fez-se senador por Pernambuco, sempre com atuação destacada no Congresso.
Nos últimos anos, enfrentou forte oposição no partido e na esquerda por seu enfrentamento ao PT e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Chegou a ser afastado do comando do Cidadania, o que só foi retomado por seu grupo na Justiça, com a eleição de Alex Manente para presidir a sigla.
Defensor histórico de alianças amplas da esquerda, hoje Freire apoia a pré-candidatura a presidente da República do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD). Nesse caso, tentaria levar seu partido a apoiar Leite, provavelmente com algum sucesso.
O problema é que Eduardo Leite nunca esteve como favorito no PSD para a disputa pelo Planalto. Dos três pré-candidatos da sigla, o escolhido seria o governador do Paraná, Ratinho Junior, que anunciou na segunda-feira, 23, sua desistência de disputar o Palácio do Planalto.
Agora o favoritismo no partido recai sobre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado. E Roberto Freire vai logo avisando: "Com Caiado candidato, teremos uma direita até mais reacionária do que um bolsonarismo com o Paulo Guedes de primeiro-ministro."
Ou seja: não dá!
"Se for Caiado, não votarei por não ter opção. Estarei escudado ainda mais na idade que dispensa o voto, pois farei 84 anos em abril. Na verdade, vou cuidar da [re]eleição da governadora Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco, e deputados federais do Cidadania", diz Freire.
E seu partido, como fica?
"Nada acertado. Talvez por liberar o voto, ou seguir o PSDB [com quem a sigla mantém uma federação partidária] em uma candidatura olímpica", especula o dirigente.
"Candidatura olímpica", para quem não sabe, é uma expressão antiga da política aplicada a quem participa das competições apenas por participar. Não para valer. Tinha também a conotação de candidatura que não era profissional, mas sim, amadora.
Quer dizer que, se Ronaldo Caiado for escolhido como candidato do PSD, ele já entra na disputa excluindo possíveis aliados. Com o sério risco de se tornar, ele próprio, uma "candidatura olímpica" sem apoio nem mesmo em seu partido, já dividido na maioria dos estados entre Lula e o candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ).
Quanto ao Cidadania, também deverá ficar rachado. Mais do que já está. O presidente do partido, Alex Manente, não tem a zelar o passado de esquerda de Roberto Freire. Deverá seguir com Flávio Bolsonaro contra a vontade dos ex-comunistas que ainda restam na sigla.
A decisão está nas mãos do presidente do PSD, Gilberto Kassab. Deverá ser tomada nesta semana.