PT vê gesto de hostilidade do PL a Ratinho Jr e busca PSD

Para o Planalto, saída do páreo de Ratinho Junior pode ser uma oportunidade de se aproximar mais ainda do PSD e do eleitor de centro-direita.

Por Tales Faria

Lula e Ratinho Junior

Externamente, o Partido dos Trabalhadores afirma que nada muda na estratégia de campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com a desistência do governador Ratinho Junior (PSD) de concorrer à Presidência. Mas, na prática, a história é outra.

O PT vê na saída de Ratinho Junior do páreo uma oportunidade de se aproximar mais ainda do PSD e do eleitor de centro-direita. “Mais ainda”, porque o partido já está próximo do PSD em vários estados.

Para os analistas do PT, o candidato do PL à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (RJ), levou seu partido e o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a hostilizarem no Paraná o PSD e o presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab.

O gesto de hostilidade foi o lançamento pelo PL, com a presença do presidente nacional da sigla, Valdemar Costa Neto, da candidatura do senador Sérgio Moro (PL-PR) a governador, ameaçando derrotar o candidato de Ratinho Jr. à sua sucessão no estado.

O governador ainda não havia fechado o nome de seu candidato, mas esperava ter o apoio dos bolsonaristas quando decidisse. Nos bastidores, ele havia manifestado preferir seu secretário de Cidades, Guto Silva, mas o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi, declarou que não abria mão de concorrer. Ambos são do PSD.

Ao desistir da candidatura presidencial e anunciar que ficará até o final do governo, Ratinho Jr. assume de vez o comando de sua sucessão, evita o racha no PSD, e mostra que fará campanha contra a eleição de Sergio Moro.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, declarou à coluna que a decisão de Ratinho nada muda na estratégia de campanha de Lula. Mas, nos bastidores do partido, já começaram as movimentações para se aproveitar do racha na direita.

O líder petista na Câmara, deputado federal Pedro Uczai (SC), não esconde o jogo: “Vamos dialogar com os setores democráticos. Ou seja, o centro, o MDB, setores do PSD e PSDB.”

Segundo ele, esse diálogo, no entanto, não põe em risco a vaga de vice na chapa do presidente Lula. “Nosso enfrentamento é contra a extrema direita, para evitar retrocesso histórico. O Geraldo Alckmin (PSB) se fortaleceu depois de ser vitorioso em relação ao tarifaço dos EUA. Ele consegue dialogar com as demais forças políticas e com o empresariado”, disse à coluna.

A vaga pode não ser a de vice na chapa de Lula, mas já se especula no PT a possibilidade de entregar ao PSD um cargo forte: o comando do Ministério das Relações Institucionais, encarregado das negociações políticas com o Congresso. O senador Otto Alencar (PSD-BA) é o nome especulado para a vaga que será aberta por Gleisi Hoffmann (PT-PR). Por coincidência, ela deverá concorrer ao Senado no Paraná.

A vaga de Gleisi estava prometida a Olavo Noleto, secretário-executivo do chamado Conselhão, o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável (CDESS). Mas Noleto é um quadro do PT e pode ser acomodado em outro posto, ou mesmo ficar onde está.

Já acomodar o PSD e os demais integrantes da centro-direita é uma equação mais complicada.