Governo avalia que reduziu danos
Nos últimos 35 anos, só quatro escolas que abriram o desfile não foram rebaixadas. "O governo anterior tentaria influir na decisão dos juízes", diz vice-líder do PT.
Só restava aos articuladores políticos e de comunicação do governo atuar para reduzir danos. Essa era a avaliação dos principais auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e da cúpula do PT, desde o momento em que a Acadêmicos de Niterói anunciou a homenagem ao petista.
É que imediatamente parte do governo se empolgou com a ideia, incluindo a primeira-dama, Janja Lula da Silva. Ela chegou a participar de ensaios da escola de samba junto com integrantes do primeiro escalão e planejou desfilar em carro alegórico.
De início, até o presidente achou que seria uma boa ideia, o que dificultava ainda mais a estratégia daqueles que enxergavam perigo de se fornecer argumentos à oposição para acusar o governo de antecipação da campanha pela reeleição de Lula.
O ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira, foi uma das vozes internas a alertar para o perigo. Não foi fácil convencer Lula a desmontar o esquema que estava sendo preparado.
Mas o presidente deixou que Sidônio vetasse a participação de integrantes do primeiro escalão no tal carro alegórico reservado aos amigos do presidente. Estavam previstos pelo menos cinco ministros. A participação ficou restrita a aliados sem mandato e sem cargos públicos.
Foi usado um parecer da AGU (Advocacia-Geral da União) orientando os ministros a evitarem o desfile. E até a direção do PT foi acionada para instruir militantes a não pedirem votos durante o desfile, o que caracterizaria crime eleitoral.
Por fim, quando Lula e Janja chegaram na avenida e foram recebidos com aplausos, mas também com vaias, foi possível convencer Janja a não desfilar.
Agora a estratégia para continuar a tentar reduzir os danos é explicar que a escola foi rebaixada não porque o presidente seja "pé frio", mas porque era praticamente inevitável.
O argumento é de que nos últimos 35 anos, só quatro escolas que abriram o Grupo Especial se mantiveram: Mocidade Independente de Padre Miguel, em 2005; Salgueiro, em 2006; União da Ilha, em 2010; e Imperatriz Leopoldinense, em 2022.
A Liga das Escolas de Samba também estabeleceu que apenas uma escola sobe e uma desce. Isso reduziu as chances de mudança na composição do Grupo Especial, promovendo a chamafda "maldição da 1ª escola" quem sobe do grupo de acesso e abre o desfile na elite tem mais chances de retornar à segunda divisão.
Ficou para os políticos encontrar agora o discurso mais apropriado para o embate com a oposição. O vice-líder do PT na Câmara, deputado Rogério Correia (MG), já encontrou seu mote. Segundo Correia, em vez de prejudicar o presidente, o desfile da Acadêmicos de Niterói o fortaleceu.
"Foi um belo desfile, muito corajoso e, principalmente, com respaldo popular muito grande mostrado nas arquibancadas. Acho que do ponto de vista do presidente Lula ele sai mais forte", disse, aproveitando para dar uma estocada nos bolsonaristas:
"Ficou evidente que não teve interferência do Planalto. Fosse o governo anterior, tentaria influir na decisão dos juízes para não haver rebaixamento."
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), ao ser perguntado se houve ingerência política da Liga das Escolas de Samba sobre o resultado, respondeu:
"Prefiro manter tudo no campo do Carnaval. A homenagem foi linda e merecida. Já as notas, dependeram dos jurados. Não vou entrar em teorias da conspiração. Aqui na Bahia e no Rio, foi tudo maravilhoso."