Lula foi salvo por Gabriel Galípolo
Ao liquidar banco Master e impedir sua venda ao BRB, presidente do BC evita que saia versão em delação premiada de que Vorcaro se acertou com Lula
Ser governo é conviver com o perigo. Que o diga o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele recebeu empresários, lobistas, banqueiros, santos e golpistas de todas as matizes nos seus dois primeiros governos.
Não foi somente o presidente Lula quem teve que lidar com ligações perigosas no exercício do cargo. José Sarney (MDB), Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Itamar Franco (Cidadania) e todos os outros presidentes da República não governariam sem ter que enfiar a mão na lama em algum momento.
Não dá para dizer que Lula se saiu mal. Deixou o Palácio do Planalto com mais de 80% de aprovação da população, inflação e juros sob controle e elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff.
Mas, de uma forma ou de outra, as ligações perigosas de muitos desses encontros valeram aos governos Lula escândalos como o do Mensalão e da Lava Jato. Embora nada tenha sido provado contra o presidente.
Agora foi revelado mais um desses encontros perigosos: Lula recebeu, em seu gabinete no Palácio do Planalto, o dono do Banco Master envolvido em diversas irregularidades no mercado financeiro, Daniel Vorcaro.
O Palácio do Planalto confirmou à imprensa uma hora e meia de conversa testemunhada por Gabriel Galípolo, então já indicado para presidir o Banco Central.
Na versão oficial, Lula disse a Vorcaro que os problemas do banco eram assuntos técnicos que ele deveria resolver (ou não) com o Banco Central.
Para sorte de Lula, tudo indica que Galípolo resolveu da melhor forma possível para o governo: liquidou o banco. Se não tivesse liquidado, a versão que poderia ficar é de que, nesse encontro, Vorcaro se acertou com o presidente da República.
O reconhecimento do Planalto de que houve o encontro é mais uma informação a reforçar as suspeitas de que Daniel Vorcaro está acertando um acordo de delação premiada. O governo pode estar sabendo disso e se adiantando ao confirmar o encontro para não deixar a versão ao léo.
Galípolo resolveu esse problema para o Planalto. Mas ainda fica no ar uma ponta do "novelo Master" que talvez só seja revelada pela delação premiada: como Daniel Vorcaro foi parar no gabinete presidencial para um bate-papo de uma hora e meia?
A principal suspeita é sobre o PT da Bahia. Também participou do encontro com Lula o empresário baiano Augusto Ferreira Lima, ex-CEO do Master que havia deixado a sociedade em 2024, mas continuou tendo ligações com Vorcaro. Ele chegou a ter prisão preventiva decretada pela Polícia Federal em 18 de novembro de 2025, mesmo dia em que o banco foi liquidado.
Augusto Lima foi responsável pelo cartão de crédito consignado Credcesta, que se tornou um dos pilares da estratégia de negócios de Vorcaro.
Sua ascensão no setor financeiro começou com a aquisição, em 2018, da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo, em um processo de privatização promovido pelo então governador Rui Costa (PT), hoje ministro-chefe da Casa Civil.
Foi o PT da Bahia que indicou o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega para dar consultoria a Vorcaro no banco Master. Mantega era outro que estava no tal encontro de Vorcaro com Lula. Havia sido contratado como consultor, inicialmente, para ajudar no avanço da negociação de venda do Master ao BRB, o banco público de Brasília.
Gabriel Galípolo, mais uma vez, salvou o governo: o BC barrou a negociação do Master com o BRB. A princípio, não se poderá dizer que Lula ajudou Vorcaro, nem na negociação com o BRB, nem evitando a liquidação.
