Interventor no RJ, general Braga Netto boicotou Jungmann
Desconfiado de milicianos, Jungmann defendeu federalização do caso Marielle. Braga Netto bloqueou informações para o ministro e manteve Rivaldo Barbosa no comando
A morte de Raul Jungmann, 73 anos, neste domingo, 19, é uma enorme perda para o país e marca o empobrecimento da política. Originário do Partido Comunista Brasileiro (PCB) ele fez carreira como um político democrata e gestor multitarefas com mais de 50 anos de vida pública.
Jungmann estava entre os mais jovens da geração de políticos que forjou a redemocratização do país entre os anos 1970 e 1990, ao lado de Ulysses Guimarães, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Tancredo Neves e outros.
Foi ministro por quatro vezes, nas pastas da Defesa, do Desenvolvimento Agrário, da Política Fundiária, e da Segurança Pública. Também atuou como deputado federal por três mandatos, e chefiou a Secretaria de Planejamento de Pernambuco.
Todo esse currículo, no entanto, não se mostrou suficiente para evitar ataques do general Braga Netto quando este assumiu como interventor federal na área de Segurança do Rio de Janeiro.
Como ministro da Defesa, Jungmann nada tinha a reclamar de Braga Netto, então seu subordinado. Mas a partir de 26 de fevereiro de 2018, quando assumiu o comando do Ministério da Segurança Pública, viu o general nomeado interventor no Rio se distanciar.
Os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes em 14 de março daquele ano marcaram definitivamente a separação entre os dois.
Jungmann desconfiava da infiltração de milicianos nas forças de segurança do Rio. Defendeu a entrada da Polícia Federal nas investigações. Já Braga Netto começou a chamá-lo de "boquirroto" Reclamou com o então presidente da República, Michel Temer. Atribuiu a Jungmann vazamentos de informações que supostamente estariam prejudicando as investigações.
Os dois chegaram e ter uma tensa reunião com o presidente Michel Temer a partir da qual a polícia do Rio e o próprio Braga Netto simplesmente passaram a boicotar o envio de informações para o ministro da Segurança Pública.
Jungmann se juntou à Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, na tentativa de federalizar as investigações, enquanto Braga Netto juntou-se a Rivaldo Barbosa, chefe da Polícia Civil do Rio, pela permanência do caso na Polícia estadual. Vale lembrar: Rivaldo Barbosa assumiu o cargo um dia antes do assassinato de Marielle e Anderson.
Em novembro de 2019, Rivaldo foi acusado pela Polícia Federal de ter recebido R$ 400 mil para obstruir o caso. Em 24 de março de 2024, foi preso junto com os irmãos e políticos Chiquinho Brazão e Domingos Brazão, como um dos suspeitos de serem mandantes dos assassinatos.